10 desculpas para não explorar o Espaço

 

Tenho esbarrado com monótona frequência em desculpas, por vezes até escoltadas de discursos decorrentes, que rejeitam e contestam aguerridamente a exploração espacial. Não pretendendo sobrevalorizar a minha opinião abertamente recetiva e entusiasta sobre este tópico, quero sim fazer notar que, como indica o título, a catadupa de objeções que se segue são apenas desculpas muito mal alicerçadas – em termos racionais, práticos e históricos. Vamos analisar uma a uma com paciência.

 

   1.   A Terra é suficientemente grande para nós.

Pois é. Motivo recorrente este. No entanto há um detalhe para o qual me sinto na obrigação de vos chamar à atenção: as mesmas pessoas que dizem isso, gostam igualmente de argumentar que O tamanho não importa. Então, vamos lá ser coerentes, o tamanho importa ou não?

Sim, a Terra é suficientemente grande para nós; é detentora de uma biodiversidade tão vasta que é possível que não a consigamos conhecer intima e inteiramente durante o nosso tempo de vida; e oferece-nos tudo o que precisamos como também nos permite ser quem somos num ciclo de harmonia inconcebível. Mas não se trata de tamanho, nenhum explorador espacial quis ir para o Espaço porque lá era maior que aqui.

A minha casa também suficientemente grande para mim e isso não me impede de querer sair à rua. O mesmo se aplica à freguesia, à cidade, à região, ao país, ao continente, aos mares, aos céus. Todos têm tamanho suficiente para cada um de nós. Contudo temos de sair, temos de conhecer, temos de explorar, queremos enriquecer a nossa visão do mundo: o planeta é nosso e todos queremos usufruir do que nos pode dar. O mesmo se aplica ao Espaço, que é nosso também. Os elementos primordiais da composição dos seres humanos são hidrogénio, oxigénio, carbono e nitrogénio (entre outros restantes); os componentes capitais do Universo são hidrogénio, hélio (este não consta de nós, de qualquer forma é um elemento quimicamente inerte), oxigénio, carbono, entre outros. Não há como refutar: nós somos parte simbiótica do Espaço. Somos pó estelar que se tornou inteligente.

Explorar, mais para uns do que para outros, é parte completiva da natureza humana, se assim não fosse, estaríamos agora sentados em redor da fogueira vestidos com peles de vaca a comer a perna do porco que caçámos ali mais à frente. Ou talvez ainda nem tivéssemos descoberto o fogo, ou nem o porco e vaca teriam evoluído para estas formas atuais.

 

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   2.   Tenho tudo o que preciso neste planeta.

Como disse no ponto acima: sim, este planeta supre todas as nossas necessidades e sacia uma enorme parte das nossas ambições. A vida em Marte, por exemplo se a colonizássemos, requereria uma readaptação drástica da nossa natureza como humanos.

Mas não vai ser assim para sempre. Dentro de 5 mil milhões de anos, o nosso sol irá transformar-se numa Gigante vermelha e mesmo que a Terra não seja consumida por ele, a água do planeta vai evaporar. E depois de apontar este facto, não me parece que seja necessário incluir qualquer outro derivado da morte solar para justificar a impossibilidade da nossa permanência aqui.

Ainda antes desse desfecho estelar, há outro fator a considerar: a lua afasta-se da Terra a uma taxa de 4 cm por ano, dentro de aproximadamente 2 mil milhões de anos, a lua vai estar demasiado longe para estabilizar a rotação da Terra, o que poderá ser corrosivo para vida neste planeta.

Como estamos a começar a perceber, o planeta tem tudo o que precisamos agora. Friso: agora. O que me faz introduzir já a 3ª desculpa.

 

   3.   Ainda falta muito tempo.

Pois falta. Porém, mudar de casa já é um processo moroso e cansativo, imaginem então mudar de planeta. Não contem com dar cá um pulinho se se esquecerem de um chapéu. Aliás, relembrando que a população mundial tende a aumentar, imaginem o que será mudar milhões e milhões de pessoas de planeta.

Acho melhor começar já a pensar nisso.

 

  4.   A desculpa acima incita solicitamente a seguinte: Isso já não vai ser para mim.

Eu ouso afirmar impreterivelmente que isso é citar o óbvio. Pois é claro que não é para nós, muito obrigada. Todavia é evidentemente o destino dos nossos descendentes e não interessa quantos milhares de gerações tenham passado, são os nossos descendentes. Descendentes que vão levar até ao futuro as nossas marcas genéticas, através dos quais nós podemos ser também parte desse futuro, serão as pessoas que tornam real a nossa passagem por aqui.

Esta desculpa tão requintada serve também para fugir com o rabo à seringa carregada de responsabilidade ambiental. As pessoas sabem que estão a destruir o ambiente, o clima, a atmosfera, o habitat de determinados animais, sabem que não temos nenhum outro planeta à mão para onde ir, não obstante puxam de uma revistinha cor-de-rosa ou do comando da TV para selecionar um canal todo top, fazem uma careta pretensiosa e mergulham de cabeça no mar do menosprezo dizendo: Isso já não vai ser para mim. Isto é: que se lixem os meus netos se não tiverem O2 para respirar.

 

   5.   Há coisas mais importantes em que gastar o dinheiro.

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Isto é um exemplo claro de como melhor gastar dinheiro. Investir em ciência??, que disparate…

 

Pois, dinheiro e ETs são coisas muito semelhantes – eu ouço dizer que existem, mas nunca vejo nada.

É verdade, é dispendioso. Mas tal não nos impede de gastar rios de dinheiro desnecessária e superfluamente, embora tenhamos ainda agora alegado que há coisas mais importantes nas quais despender o dinheirinho. É verdade que o valor de uma cerveja ou de um verniz para as unhas não são suficientes para contribuir com – e muito menos cobrir – uma missão à Lua, porém a sua compra inconsciente impossibilita a aplicação desse argumento. Lembrem-se de que a ciência espacial também é responsável por colocar centenas de satélites aí por cima que nos permitem andar agora de smartphone e tablet na mão o dia todo a aceder a toda e qualquer informação.

 

   6.   Há pessoas a morrer à fome na Terra.

Infelizmente é verdade e é razão de grande tristeza e angústia para mim.

Vamos examinar somente a linearidade da argumentação, que é das mais batidas por aí, sobretudo em memes manipuladores nas redes sociais. Admito e defendo que esta questão tem de ser peremptoriamente a primeira a ser resolvida antes de pensarmos em passear em Marte, ou em qualquer outro lugar.

No entanto, se não apostarmos na exploração e aprendizagem espacial, as hipóteses de acabarmos todos a morrer, por fome ou outros motivos, devido a alguma catástrofe cósmica, são bastante elevadas. É bom que esse pessoal astronómico ande de cabeça literalmente no céu de forma que, por exemplo, nos possamos proteger de impactos calamitosos. E como disse inicialmente, a humanidade não vai poder manter-se na Terra para sempre – se soubermos nós como a manter até lá.

Esse é apenas um exemplo, as vantagens resultantes da ciência espacial – em termos de compreensão e descobertas concretas – têm sempre como finalidade os benefícios para as pessoas e para o seu planeta.

Quanto a estes 2 últimos pontos, creio que a maioria de nós tem culpa no cartório, e antes de nos socorrermos das desculpas do dinheiro e da fome, temos de ser nós individualmente os primeiros a tomar medidas de heteroajuda para com pessoas e causas que precisem.

 

   7.   Os cientistas não querem saber das pessoas.

cientista

 

Não, não querem. Os cientistas afinal não são pessoas, são gatos. Permitam-me imprimir uma modificação morfossemântica nessa desculpa: A maioria das altas entidades governamentais é que não quer saber das pessoas. Estou confiante de que se há alguém preocupado com a Terra e com a humanidade são os cientistas, pois os dados que possuem e com que trabalham não lhes permitem fechar os olhos e deitar a cabeça no ombro da negação acerca da nossa situação precária no planeta. Deixem de confundir lamechice com preocupação, e frieza com racionalidade. Andar a fazer tweets ou status de gotas cristalinas de orvalho numa folha solitária de videira sobre o (falso) amor ao próximo não é ser humano, é ser pateta.

 

   8.   Nascemos aqui, então morremos aqui.

Tenho de expressar a minha crua sinceridade quanto a esta, acho que é das mais egocêntricas de todas. Já a ouvi várias vezes. Os meus descendentes não têm de morrer com a Terra só porque eu não concordei com a mudança dos Homens para outro planeta. E mais uma vez devo apelar à coerência, se esse princípio fosse racionalmente consistente, se nenhuma pessoa o tivesse contestado, ainda nem conheceríamos a cidade ao lado. O nosso próprio mundo ter-se-ia conservado no incógnito até hoje. E nós na ignorância.

Esqueçam a possibilidade de regalar os olhos com ginastas da Europa de Leste, brasileiras de biquíni, atores norte-americanos e futebolistas madeirenses – há o que houver no vosso limitado raio de nascimento e contentem-se com isso, porque se nascemos num local não devemos de lá sair nem conhecer nada sobre nenhum outro. Conforme implica esta desculpa.

Notem que temos andado a empurrar cada vez mais a fronteira da compreensão: a zona delimitada ao desconhecido está a tornar-se cada vez menor, enquanto aumenta a região do saber. Há alguns séculos atrás ainda nem conhecíamos a forma do globo terrestre – atualmente estamo-nos a aventurar na descoberta de multiversos: o mundo deixará de ser uma aldeia global e será parte integrante de uma comunidade universal. O filósofo Sócrates dizia que não era nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo. Acredito que amanhã vamos ser cidadãos galácticos.

 

   9.   Os cientistas não sabem nada.

Sabem mais do que quem afirma estes disparates com certeza.

Ok ok…, o nosso conhecimento do universo corresponde a apenas 4%. Mas pensem no que vou dizer: se aplicarmos a história do universo ao calendário cósmico, de janeiro a dezembro, a humanidade surgiu no último mês, no último dia, nos últimos 10 minutos. Reflitam a admirem tudo o que já descobrimos, tudo o que já aprendemos e conseguimos alcançar em tão pouco tempo. Viemos de uma origem rudimentar e primitiva até nos transformarmos numa espécie que recentemente aterrou num asteroide e que enviou uma sonda para lá dos confins do sistema solar a qual nos envia fantásticas imagens de Plutão, seja ele planeta ou não.

 

Cosmic Calendar

 

Por outro lado, nós partilhamos 50% do nosso ADN com as bananas, o que explica de facto muita coisa. Pois essa espécie de inteligência promissora é a mesma que gasta água absurdamente como se não quisesse que houvesse amanhã. A mesma que transformou o ar que respira em smog. A mesma que gasta sacos de plástico absurdamente porque em algumas regiões ainda são gratuitos, os quais atiram ao mar se lhes apetecer matando em consequência centenas de tartarugas. Além de parecer não aprender como circular numa rotunda.

 

   10.   Não sabemos o que está para lá do desconhecido.

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Pois não, por isso é que queremos descobrir. É como uma porta fechada da qual ninguém nos dá a chave.

Se podemos descobrir realidades terríveis, colocando-nos em risco? Sim. E podemos igualmente descobrir mundos fantásticos. Respeitantemente a riscos e horrores, não creio que precisemos de sair de cá para que tal aconteça, pois já o fazemos extraordinariamente bem a nós mesmos.

 

 

 

 

6 comentários Adicione o seu

  1. Luis diz:

    Dinheiro…o problema é o malvado do dinheiro.
    Se vivêssemos numa sociedade em que o motor da economia fosse os avanços científicos ao invés da especulação económica e os “mercados”, seguramente que já teríamos pousado em Marte antes do ano 2000, provavelmente estávamos a conquistar as luas de Júpiter e Saturno.
    Também grande parte das doenças teriam cura, se o que motivasse as grandes farmacêuticas fosse o bem estar e não o lucro, pois ganham muito mais em estar durante meses a vender algo para remediar do que por exemplo “toma lá uma vacina e estás curado”.
    Para não falar na tecnologia de aproveitamento de recursos e energia, se o móbil fosse o bem estar e desenvolvimento estaríamos hoje a usar 100% de energias limpas, a não desperdiçar um grão de cereal nem uma gota de água.

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Tens razão, Luís.
      Além disso, penso que o mau gasto de dinheiro é praticado e apelado por todos, constantemente a incidir em despesas desnecessárias e mal direcionadas, basta pensar nos valores gastos anualmente em tabaco. Estar a protestar contra os montantes dedicados à ciência espacial a puxar de cigarro atrás de cigarro mostra bem o que é ter prioridades mal definidas.

  2. Marco diz:

    Um comentário a alguns dos teus argumentos: O ser humano ao longo da sua existência sempre teve a grande capacidade de se adaptar àquilo que tinha, certo? Então será que para lá não será ele capaz, de algum modo, de se adaptar a novas condições de vida?
    Digo isto porque concordo até certo ponto que há muita gente necessitada a quem algum investimento faria muita falta. Isto pelo mundo fora, o qual é “grande o suficiente para nós”.

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Obrigada pelo comentário relevante, Marco. Não sei se teve capacidade de se adaptar ao que tinha, ou se se tem adaptado ao que tem inventado.
      Acho que o mais importante de momento é que aprendamos como nos adaptar a práticas rígidas de proteção do ambiente, dos animais, e aprender a ser solidários com tudo o que vem incluído com o planeta – sobretudo para com as pessoas que mencionas, e temos de aprender a resolver os problemas que nós mesmos criámos.

  3. Gonçalo diz:

    Totalmente de acordo, há muito para descobrir e porque não partir nesta aventura? Com toda a certeza que as pessoas se deviam levantar do seu sofá e procurar descobrir coisas sobre o nosso universo (e algumas sobre o mundo visto que confundem Áustria com Austrália). Pelo menos não creio que haja um bicho de 7 cabeças no planeta ali ao lado para nos comer, mas sempre podíamos simpatizar com ele e tirar umas selfies. Bom trabalho!

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Obrigada, Gonçalo!

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