Os argumentos do iceberg (do veganismo) 

 

O que vou escrever neste artigo vai ser ponto de partida para qualquer assunto, ideologia, debate ou até receita que partilhe neste blog. Ponto de partida e ponte de ligação. Por que os argumentos mais recorrentes, as perspetivas mais comuns, a forma de pensar e responder mais espontânea, as nossas ideias mais enraizadas e até os nossos hábitos mais rotineiros estão errados. Lamento, mas estão.

O nosso modo de reagir, de retorquir estão forjados por noções que nos foram impostas decorrentes de uma cultura que também nos foi imposta.

At Plaza de Toros de Las Ventas in Madrid
O nome certo não é tourada, é bullying. Quem escolheu fazer isso, fomos nós? Ou foi-nos imposto sem darmos por isso?

O que eu espero com este artigo é que no momento em que espontaneamente reagimos, recorrendo aos argumentos que temos em arquivo social no nosso cérebro, possamos pensar no que lemos aqui, contemplá-lo de um outro ponto de vista e então proceder nós mesmos à estruturação de conceitos em que acreditamos honestamente.

Por que a era da mudança está aí, e a grande boa notícia é que guerra nenhuma tem de nascer. Sem revoltas, sem sangue, tristeza ou amargura, como noutros episódios difíceis do nosso passado. Pelo contrário, apenas com um garfo e uma faca, e algumas escolhas simples, podemos mudar o mundo e partilhar felicidade e abundância por todos. Por que a vida não é descartável.

Vamos pôr os argumentos numa lista então.

  1. Sempre fizemos/comemos assim.
  2. Já os nossos antepassados caçavam e comiam carne.
  3. Mas temos de comer alguma coisa.
  4. Mas sabe bem!
  5. O ser humano é omnívoro.
  6. A carne tem ferro.
  7. O peixe tem ómegas.
  8. As plantas não têm proteínas.
  9. A proteína vegetal é diferente da animal.
  10. A alimentação vegetariana é muito cara.
  11. Não sou a favor de imitações de carne/queijo!
  12. A alimentação vegan é desequilibrada.
  13. A alimentação vegan é muito restritiva.
  14. Não podemos estar a pensar em tudo.
  15. Se comermos carne/laticínios, temos mais energia.
  16. Se não comermos os animais, eles dominam o mundo.
  17. A natureza é mesmo assim.
  18. Os leões comem carne.
  19. Os animais estão aqui para os comermos. Ou fazer o que quisermos.
  20. Os animais iam morrer na mesma.
  21. Mas o médico disse-me para comer carne. E ovos. (A sério??)
  22. Não digo a ninguém se devem ser vegetarianos ou não, portanto não quero que me digam a mim se devo comer carne ou não.
  23. Mas as plantas também sentem dor.
  24. Se comeres só plantas, estás a contribuir para a desflorestação.
  25. Os nossos antepassados (outra vez?) vestiam peles de animais.
  26. Ao utilizar peles está-se apenas a aproveitar um recurso.
  27. Nos Açores não é assim. (Não, que não é…)

 

Vamos ficar por aqui agora, porém há mais. Há mais e outros há que voltam a relacionar-se com os supraditos.

Não posso neste artigo dar atenção a todos eles, mas posso-vos confessar que já acreditei em alguns deles. Contudo agora sei com toda segurança que estava errada e espero poder partilhar com vocês a nitidez que experiencio agora, pelo que havemos de ir conversando. Para já temos oportunidade agora de resolver um deles, vamos pensar no primeiro argumento do iceberg então.

Argumentos do iceberg – mas o que é isso?

São aqueles que revelam um cume limpo mas escondem uma realidade imprópria para consumo, tão longe da nossa perceção. Pois é isso que está a acontecer, as lojas, o marketing, os restaurantes de fast fodd, os lobbies, as tradições, os governos até, concedem-nos generosamente imagens de saúde e de animais felizes e saudáveis, entalham na nossa mente linhas falsas do que realmente se passa nos bastidores dos nossos pratos, das nossas roupas, da nossa cultura.

Vamos lá.
  1. Sempre fizemos/comemos assim.

E desde quando os exemplos passados são justificação coerente? Se fizéssemos/comêssemos sempre como faziam as gerações anteriores, vivíamos ainda numa caverna. Sem água canalizada, sem condimentos da Índia, sem talheres, sem fornos/micro-ondas elétricos, sem luz, sem sommiers, sem depilação, sem cabeleireiros ou ginásios. Sem telemóveis. Sem ketchup, sem batatas fritas, sem pastéis de nata com café. O argumento do passado não pode convenientemente servir para uns aspetos, descurando os outros. Quando um argumento é irrepreensivelmente válido logicamente não apresenta lacuna alguma.

De maus hábitos de um passado relativamente recente, aprendemos já que os enchidos não são saudáveis, que os fritos também não, que as farinhas refinadas não são as ideais, que a carne vermelha deve ser evitada. Já sabemos até o quanto o tabaco é prejudicial e já são mais os que advogam uma vida sem cigarros do que os que fumam. Mas antes não era assim, pois não? Todas essas confeções alimentares eram bem aceites e até algo estimadas como traços culturais. Agora são raros aqueles que objetam ao rejeitá-las.

A sério,

fumava-se em camas de hospitais. As mulheres não conduziam, votavam ou trabalhavam. Os negros eram produtos. Nem a Terra era redonda tampouco.

Conseguem ver?

Conseguem flexionar a vossa perspetiva de maneira a ver a coisa de fora, de longe, com um contexto histórico que favoreça a clareza?

Não estou a pedir nem sequer sugerir que mudem seja o que for, apenas que refutem já esse primeiro argumento. Como estão a ver, não vale a pena.

 

 

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