50 sombras do tal Grey. Ou lá como se chama o gajo.

Chegou a minha vez. Sim, chegou, não foi no momento boom, momento bang (bang talvez seja mesmo a melhor palavra para este filme), mas já vi o filme das 50 sombras do tal Grey. Ou tons de cinza do Não-sei-quem. Não interessa.

E eu que sou uma fonte imparável de palavras e frases, textos e orações, fico sem saber o que dizer… Permitam-me concentrar-me durante uns segundos.

Já está.

Logo de início, devemos sublinhar e não esquecer de que os livros não estão bem escritos. E o filme está mal dirigido. Quando acabamos de ler um livro ou de ver um filme e ficamos com a sensação de Que raio aconteceu aqui agora?, não sendo um género de lavagem cerebral que sentimos, mas sim um despejo intelectual – sem direito a renovação -, então é seguro afirmar que algo estranho se passou na produção dessas formas de entretenimento. Sim, é apenas entretenimento, não vamos atribuir terminologia sublime, como literatura ou arte, ao que não é.

Todavia, também não vou entrar numa de moralista ou fundamentalista. Se vos faz felizes, se vos faz passar uns bons momentos, então leiam e releiam, vejam e revejam os livros e o filme. Que se lixem as divisórias preconceituosas que nos impõem.

No entanto há coisas que, sobretudo como escritora, não fazem rigorosamente nada para sossegar a minha insurreição linguística. Para não estender em demasia o assunto, vou resumi-lo: como é que se pode publicar um manuscrito, apelidá-lo de livro, se o seu autor não sabe escrever e se a editora que o vendeu não pôs sequer ninguém a corrigir os erros? Ou virão essas falhas da tradução? Vejamos: “ (…) Que alguém tão inocente como tu esteja disposta a experimentar.”. Não é disposta!, é disposto no masculino, porque o sujeito é alguém, o qual é masculino. Todos sabemos que em português se faz acordo de género. Quase todos, aparentemente.

A base visceral do trabalho de um escritor não é saber escrever? Não é um livro formado de folhas escritas? Presumo que um escritor sabe inquestionavelmente escrever, porém há quem até escreva qualquer coisa, mas não é escritor certamente.

As páginas dessa saga têm erros ortográficos, sintáticos e semânticos. E quanto a retórica, não há alguma. E, a meu ver, o fio condutor, que me obrigou a ler toda aquela ladainha até ao fim, afinal não é nenhum. Então o rapaz tinha um segredo terrível, terrível, terrível, que o fazia sodomizar as mulheres forte e feio, e afinal esse mistério não é nenhum, não é nada. Eu esperei e fantasiei com a revelação de um enigma monumental, sobre a natureza humana, do cosmos, das mitocôndrias, dos buracos negros e afinal… Oh pá, eu já nem sei o que era. Não era nada.

 

50 sombras de grey

 

E por que é quis ver o filme? Olhem, porque foi a curiosidade matou o gato.

Confesso que não estava muito interessada no padrão emocional da coisa, até porque a história assenta em premissas semânticas e lógicas mal fabricadas. Quais? Por exemplo, não me parece proporcional à idade do rapaz uma vida daquelas dimensões, desde a empresa, ao dinheiro, aos bens, à experiência e personalidade, até aos excêntricos hábitos de sexo contratual. Por favor, ele tem 27, e todos sabemos o quanto demora a construir uma vida. Quanto aos bens, eu sugeria que ele fosse devagar com os carros, com o barco, com o helicóptero, o jato e etc, o que é que ele está a tentar fazer? Devastar completamente o ambiente antes dos 30 anos? Não me recordo de nenhum desses veículos ter sido apontado como elétrico ou utilizar fontes de energias renováveis. Com gastos assim, no momento em que eu terminar este texto, já se teria acabado o petróleo no mundo. Diz o meu marido que não teria tanto impacto se não fosse assim. Lá impacto tem. Um impacto ambiental do caneco!

Eu é que tenho uma grande vontade de o amarrar a um sítio qualquer e lhe dar uns bons açoites e chicotadas por causa de todas essas emissões de CO2, SO2, NOX, e tanto mais.

E espero que o arsenal de brinquedos sexuais, que ele tem lá no quarto vermelhito, sejam fabricados a partir de produtos naturais e cuja mão de obra não seja as crianças com fome que ele alega querer ajudar.

A sra. Robinson… Mas como é que ele é iniciado aos 15 anos no sexo SDM por uma mulher adulta, que o faz perdurar por vários anos, e ainda mantém amizade no presente com a supradita senhora? Isto não é desculpar e aceitar um crime, cujo nome todos nós conhecemos tão bem?

E ela tem 21. Tão fresquinha. Completamente virgem e entrega-se nas mãos dum abusador. Levas no rabo, Anastasia! Pronto, toma lá um vestidinho para não chorares. Alguns argumentariam dizendo que o cérebro não escolhe de quem o coração gosta. Ela não tem é cérebro, penso eu… E enquanto as mulheres aceitarem o quanto a sociedade lhes molda para serem submissas, delegando todas as suas capacidades e talentos nos homens, porque assim é que é conveniente, histórias assim de deslumbre e submissão ao género e ao dinheiro masculinos continuarão a surgir. Na realidade.

Sinto-me também na obrigação de informar os leitores de que aquilo não é sadomasoquismo. Uma verdadeira relação SDM é aquela entre a autora e os leitores – isso sim é infligir e receber sofrimento atroz. Sobre a autora… Bem é uma mulher na casa dos 40 anos que atribui à protagonista enunciados sobre depilação do género: Tirar com cera? Tirar o quê? Tudo? Urgh! Ou Raramente usava maquilhagem – intimidava-me. Mas o que é que te intimida, a maquilhagem? Creio não precisar de acrescentar ironia aqui.

Ah, por que é que quis ver o filme? Então o rapaz afirma com assaz segurança que não mantém envolvimentos amorosos, ele – vem agora a tirada do século, da qual nem o Pessoa e a sua vasta equipa de heterónimos seriam capazes – fode. Ele fode a sério. E eu pensei Ah isso eu gostava de ver então. Se fosse possível, já agora…

Contudo o filme acabou e eu não vi nada. Outra vez.

Um comentário Adicione o seu

  1. Antero diz:

    Excelente crítica!
    Que porcaria de filme. Tanto alarido para um pequeno andar aos açoites numa rapariga ainda mais pequena, tal tristeza.
    O menino Grey devia gastar menos em tarecos para o seu quartinho e fazer-se homem de uma vez por todas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *