A Lua e a sua (não) influência social

Originalmente publicado em Açoriano Oriental

 

Hoje vamos pensar no alegado papel influenciador que a Lua poderá no comportamento humano, pois muito bem conhecidas de todos nós são as lendas sociais que atribuem ao nosso satélite natural a responsabilidade por alguns dos nossos comportamentos menos bonitos.

 

Gostaria desde já fazer notar que várias pesquisas têm sido conduzidas de modo a encontrar provas de que Lua possa desempenhar algum papel de relevância nas situações descritas abaixo e a resposta é nula: nenhuma correlação foi encontrada.

Força gravitacional – água – comportamento humano

A ideia dedutiva de que a lua afeta as marés, as marés são constituídas por água, o corpo humano contém uma enorme percentagem de água – como o cérebro também a tem e o líquido amniótico igualmente idem idem aspas aspas – logo a Lua deve influenciar o comportamento ou o parto é FALSA.

A Lua afeta efetivamente as marés (por motivos de massa e nunca de fase lunar), todavia a responsabilidade é de 3 fatores em conjunto: Lua + Sol + rotação da Terra. Além disso, a gravidade do satélite influencia apenas corpos de água (oceanos), e não aqueles que contêm água; como o cérebro para efeitos lunáticos, ou a bolsa do líquido amniótico para fins de parto.

A gravidade que a Lua exerce sobre nós é mínima; consideravelmente menor que a Terra. Assim, os possíveis efeitos gravitacionais da Lua sobre a atividade cerebral são ínfimos, coibindo qualquer hipótese de desvio comportamental. Como interessantemente descrevia o astrónomo George Abell da Universidade da Califórnia: um mosquito pousado no nosso braço exerce mais energia gravítica em nós do que a Lua, no entanto não se conhece relatos desta Influência do Mosquito na conduta humana.

Chegou-se a ponderar a possibilidade de a iluminação extraordinária nos dias de lua-cheia, num tempo atrás sem eletricidade, ser capaz de influir o comportamento humano, contudo a luminosidade nessa fase é equivalente a apenas ¼ da luz que emite uma vela. E nunca ninguém enlouqueceu de olhar para uma vela, a não ser que se queime nela.

Crimes – lua-cheia (?!)

A resposta é simples: não há evidência alguma que tal aconteça. Segundo as investigações, não há interdependência nenhuma.

Então por que é que acontece? Pelos seguintes motivos:

• Tradição

• Influência social

• Comportamento adquirido

• Correlação ilusória/confirmação enviesada

Considero que os 3 primeiros são claros. O último diz respeito à tendência de as pessoas se recordarem e/ou interpretarem informações que confirmem crenças ou hipóteses pré-estabelecidas.

Por exemplo: Hoje sinto-me agitada, sem nenhum motivo particular. Relembrando-me de todas as estórias folclóricas que já me contaram sobre a Lua (tradição, influência social), eu penso: Deve ser lua-cheia… Quando verifico, apercebo-me com surpresa de que de facto a Lua está cheia. Logo, mantenho sempre este momento em memória acessível. Mas olvido com facilidade todas as vezes em que já me senti assim e não era lua-cheia nem lá perto: isto é um caso claro de correlação ilusória/confirmação enviesada. E como vou primordialmente reter esta ideia sequente de um acontecimento sem fundamento em detrimento de outros, vou contá-la aos meus filhos, aos meus netos, amigos e vizinhos, que por sua vez irão herdar e prolongar o comportamento.

Na minha opinião, o verdadeiro comportamento lunático é o de assimilar, sem questionar, e ainda difundir noções sem justificação lógica. Se há mais assaltos durante a lua-cheia, é apenas porque se vê melhor, e a verdade é que ninguém consegue enfiar aqueles aramezinhos nas fechaduras às escuras.

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