A maldita zona de conforto

Não há ninguém que não esteja familiarizado com esta expressão, é das mais batidas atualmente, e eu não sei se não supera mesmo os tão populares provérbios. Esta locução fez casa na boca da maior parte de nós e parece não querer ceder lugar, nem direito de passagem a outras.

Como já poderão estar a calcular, não morro de amores pela conversa Sair da zona de conforto, e antes de esclarecer o por quê, vou acionar alguns dispositivos semânticos que iluminem o seu verdadeiro significado.

O que é que isso quer dizer na verdade? De forma direta e sintética, significa contrariar um hábito. Ou seja, é importante – por vezes decisivo – quebrar rotinas, domar os nossos próprios costumes, arriscar. Viver. Efetivamente, do ponto de vista neurológico, é assaz importante combater alguns automatismos de forma a conquistar um melhor funcionamento cerebral, mais eficientes ligações entre os neurónios. Tomem os seguintes exemplos: lavar os dentes com a mão esquerda (se forem destros, claro), trocar de lugares à mesa, tomarem banho de olhos fechados, ir para o trabalho por outro caminho são pequenos exercícios capazes de incitar uma melhor performance neuronal. Pense: ceder à rotina mecânica e monótona conduz a que o cérebro não se esforce, que não seja estimulado.

Naturalmente, as descrições acima são apenas pequenas práticas diárias, contudo aptas a desbravar terreno, preparando-nos para fazer dissipar o medo da mudança. Se é para melhorar, avança-se sempre. Já o Camões sabia disso, não é novidade: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, /Tomando sempre novas qualidades. E é realmente essa zona de conforto que é perentório abandonar.

Todavia não foi para entrar numa de oradora motivacional que vim cá escrever hoje. Deus me livre. É que considero problemático e algo irritativo quando a própria conversa que quer impelir uma mudança se torna ela também numa… rotina. Oh sim, agora é maldito cliché e parece ser como o preto: dá com tudo.

Não gostos de jeans. Tens de sair da tua zona de conforto. Gosto mais de laranja que banana. Tens de sair da tua zona de conforto. Não gosto muito de ir à praia… Tens de sair da tua zona de conforto. Não gosto de ver novelas. Tens de sair da tua zona de conforto. Não gosto de acordar tarde. Tens de sair da tua zona de conforto. Gosto muito de iogurtes. Tens de sair da tua zona de conforto.

Ah pois é, eu disse, isso dá com tudo, dá para tudo. E dado que é uma ideia muito disseminada e trabalhada pelos tais e tão poéticos instigadores de motivação, sempre que é proferida – por quem for – facilita a ilusão de parecer uma verdade universal.

Na maior parte das vezes não há sintonia semântica, mas arma a pessoa que a proclama de um argumento que se tem como categórico, incontornável. Há ainda mais um fator a competir com esses pela propagação dessa frase: a moda. Quem o afirma é todo contemporâneo e cultivado, quem o recebe teme ser bota de elástico e desiste de comer iogurtes.

Ceder a um cliché é ceder a uma rotina. Impede o cérebro de originar novas ideias, novas frases. Mais do que isso, impossibilita que a mente seja capaz de analisar se dizer a alguém Sai da zona de conforto se prende de facto com a ideia e com o intuito corretos. Ou se apenas é justificação para levar alguém a proceder segundo a vontade de quem o diz.

Se não estiver a ser utilizada de modo certo, por favor: saiam da vossa zona de conforto e parem de dizer isso.

5 comentários Adicione o seu

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Obrigada!

  1. Miguel diz:

    Saí da minha zona de conforto e comentei este ‘post’! 🙂

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Já agora também saio da minha para cá vir responder aos comentários 😉
      Isto é que é pessoal ousado!

  2. Antero diz:

    :)) Hoje vou à praia e aproveito para sair da minha zona de conforto (casa)

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