Acham que estamos a abrasileirar a nossa língua?

 Originalmente publicado no Açoriano Oriental de 26/11/15

Sem invocar demais esperas no leitor, vou certeiramente ao assunto: Sim, é do novo acordo ortográfico de que vamos conversar e do motivo, se é que lhe podemos intitular tal coisa, de estarmos a abrasileirar o português. Como esta é uma ideia recorrentemente popular, imagino que alguns possam já estar a acenar a cabeça em concordância, porém vamos analisar o que deveras se passa com este assunto.

 

Logo de início, sinto-me na obrigação linguística de vos informar que ninguém está a forçar uma alteração à nossa língua, coagindo-nos a nós de a pronunciar e/ou sentir de forma diferente – pois esta é uma reação comum, Não vou mudar como pronuncio ou escrevo o português só porque eles querem. Estão a reconhecer? Mas na verdade é exatamente ao contrário. Os idiomas evoluem e alteram-se natural e gradualmente, e esta mudança é perpetuada pelos falantes. Sim, somos nós todos que estamos a renovar a língua portuguesa, e não outra pessoa qualquer que pensem que o está a fazer. Somos nós. O que os cientistas da língua devem fazer periodicamente, havendo motivos políticos ou não, é ajustá-la formalmente para que melhor se adapte às nossas necessidades comunicativas ou, no caso ortográfico, para que melhor reflita o que nós proferimos. Nós pronunciávamos o p de Egito? Não. Pronunciávamos o c de ator? Não. Então que diferença nos faz? Nenhuma. A palavra asteroide pronunciar-se-á de modo diferente porque o acento gráfico caiu? Claro que não. Ah acha que sim? Pense no nome Adelaide, como o pronuncia? Tem acento?

Já agora, creio ser de vital importância comunicar-vos que as palavras contacto, facto e conectar não perderam o c. Escrevê-las sem essa consoante é um erro à beira de tomar proporções desmedidas, pelo que por aí vejo. E eu não estou a falar por falar, conheço este este assunto em profundidade e sei com precisão simétrica o que estou a dizer.

 

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Com ou sem acordo, não me importava de fazer isto também…

 

A presença ou não de consoantes que não se leem ou a queda de acentos gráficos prendem-se com fatores relacionados com posição fonológica, etimologia e evolução/história da língua. Todas as modificações propostas por este acordo têm fundamentos – científicos – sólidos; além disso, se estes acordos não fossem realizados ocasionalmente, este texto estaria ainda em Latim. Ou talvez nem isso. Um acordo ortográfico é apenas uma questão de forma, nunca de essência.

O que acho sublimemente bizarro quanto ao imago tendencioso de estarmos a abrasileirar o português, ignorando as modificações que o português do Brasil efetuou também, é que nunca ninguém pareceu importar-se com a importação de expressões e vocábulos brasileiros até agora, marcando todas elas presença fincada na boca portuguesa de muitos nós. Quais? Esquentar, fazer a faxina, minha nossa, bicha, mandar de volta, marron, camisinha, aprontar, bagunça, bunda, deu tudo certo, enxergar, cochilar, transar, oi, fofoca, caju, tigrão, deixa para lá, gostoso. E tantas mais há, Né, minha gente? Devo continuar?

Com estas e muitas outras nunca ninguém se importou, pelo contrário, elas viram moda com facilidade estonteante. No entanto, remove-se da grafia um c que não é pronunciado e que fonologicamente simplesmente não existe, e caem o carmo e a trindade, alegando que estamos a vender a alma portuguesa. Estamos? Releiam o parágrafo anterior e pensem melhor.

 

 

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