O ambiente, o cálcio. A ilusão do leite.

Publicado originalmente em Açoriano Oriental 

 

Leite. Leite «normal», como usualmente dizemos. Isto é, leite de vaca. Podia ser de cabra, de ovelha, de burra, contudo o mais comum é de vaca, certo? Tecnicamente até podia ser de porca, de cadela ou de égua. Mas optámos pelo de vaca. Sim? Sim, até aqui somos todos da mesma opinião. Pronto, leite de vaca então. O que eu gostava efetivamente de saber é se precisamos mesmo dele.

Precisamos?

A sério? Quem nos diz que sim e com que interesse? Haverão conveniências dúbias?

Eu pensava puramente que não. Não só nos mandam bebê-lo, como entra numa parafernália incomensurável de confeções. A sua presença é firme. Renitente, diria mesmo. E que quantidade diária nos dizem para beber exatamente?, recordem-me por favor. Muita. Pensemos num valor médio de meio litro por pessoa, há quem recomende mais, variando circunstancialmente, mas vamos por aí, meio litro.

Como fazer?

Que opções temos então para o conseguir, olhando para lá das imagens de marketing ou prateleiras de lojas? Vejamos como funciona. Ou compramos muito leite ou arranjamos uma vaca, inseminamo-la, tiramos-lhe o bezerro depressa, (matamo-lo cedo) e força na extração. Entre essa cria e a mãe originar-se-ia um laço forte e duradouro, como connosco. Mas não podemos permitir e vamos repetindo o processo até à exaustão.

Água

E não nos podemos esquecer de que, optando por esta última possibilidade – da aquisição da vaca -, precisamos também de espaços imensos para alternar, possivelmente rações e/ou mais área para cultivar os cereais para este fim, e muita, muita água. Água – aquele elemento de que só dispomos numa percentagem de 3% fresca para consumo, que se pode esgotar nos próximos anos, e que mesmo em alguns países a sua frequência é escassa -, sim essa água é para a vaca. Ou para muitas vacas, se considerarmos a financeiramente prolífica indústria intensiva da agropecuária. Isso para que consigamos sorver os tais hipotéticos 500 ml por dia.

Fome no mundo

Já agora, uma pequena nota: apenas os cereais gastos na produção das tais rações seriam passíveis de alimentar centenas de pessoas; o que é empregue para a produção meio quilo de carne alimentaria quase 300 pessoas. Seja para carne ou para leite, independentemente da quantidade, é indubitável que traduzido por alimentos do reino vegetal, alimentaria muitos mais de nós. E faltou juntar e esta soma as pastagens por onde deambula a vaca «feliz». E nem mencionei que é comum que os tais cereais para rações sejam importados de países onde pessoas morrem de fome. Para produção de leite ou carne (sobre a qual havemos de falar mais tarde), vai tudo dar ao mesmo, na verdade.

Lamento a imagem mas é verdade. Os cereais que importamos que acabam na produção de um pouco de carne/leite podiam salvar quase 300  dessas crianças.
Não, eu não quero leite nem carne, obrigada.

 

E isso interessa? Temos de beber o nosso leite e aparentemente fazemos o que for preciso para o conseguir. Arranja-se mais pastagens ou encarceramos o máximo de vacas no mínimo de espaço, dominamos milhões de animais, pedimos subsídios, pomos árvores abaixo – o leite é que importa. E natas para pudins, e queijo abundante para pôr em tudo o que consigamos pensar. Muita carne e ovos também. Certo? Não.

Ambiente e a agropecuária

E já que aqui estamos, posso-vos segredar que a indústria da agropecuária é a responsável pela emissão de 51% dos gases de efeito de estufa, contra apenas 13% de todos os transportes globalmente. Sem ambiente cuidado, ninguém vive, nem a vaca, nem nós. É uma equação simples.

Intolerância à lactose

Uma notável percentagem da população mundial é intolerante ao leite. Por que razão? Por que alguém nos convenceu a escolher o leite de uma espécie que não é a nossa, de uma mãe que não é a nossa, para lá do tempo que é nosso de o fazer – sem que o nosso funcionamento digestivo esteja preparado para o conceber. É tão óbvio, só o negamos por nos ser conveniente. Mais conveniente ainda às indústrias e governos que lucram com isso à custa da nossa saúde.

 

Então se não parece ser a opção correta, como chegámos a isto? E o tal cálcio?, onde o vamos conseguir?

Eu volto brevemente para vos contar.

Continuar aqui

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *