As loucuras natalícias dos papás

 

Nós, pais atenciosos e responsáveis, tomamos atitudes e decisões – por vezes – das mais estapafúrdias. A estória que vos vou contar ilustra-o muito bem.

 

Eu sei que a perfeição parental que almejamos utopicamente nem sempre é praticável – fazermos o melhor que conseguimos com os recursos disponíveis e preocuparmo-nos sinceramente em querer fazer melhor pelos nossos filhos é de facto o melhor que está ao nosso alcance muitas vezes. No entanto o nosso comportamento como pais no episódio festivo que vos vou contar é consideravelmente estranho e difícil de compreender, se pensarmos no assunto com clareza – não admira que as crianças fiquem confusas.

Vou já dizer-vos o que se passa.

Então passamos todo o ano a ensinar-lhes com veemência a nunca, nunca – jamais! – falar com estranhos, e menos ainda aceitar seja o que for de estranhos, sob circunstância ou pretexto algum!, todavia no Natal aparece por aí um gajo altamente suspeito, que se apresenta como mais ninguém, que os miúdos nunca viram mais gordo, e nós pais o que é que queremos que as crianças façam? Que falem com ele, aceitem um embrulho, que lhe deem um beijinho e ainda se sentem ao colo do estranho para tirar uma fotografia. Ah que bem da nossa parte!

 

pai natal
Txiii ele nem capacete usa…

 

Sim, as crianças maiores já conhecem o homem de vermelho e já o esperam anualmente, contudo os mais pequeninos não, nem têm a mais remota noção de quem ou do que representa aquela figura, grandemente comercializada por uma marca de refrigerantes não muito saudável… Desculpe, Pai Natal, por mais que goste de si, é a verdade (mas não deixe de me trazer qualquer coisinha por isto, continuamos amigos, está bem?).

Creio que concordam comigo, e embora seja uma situação caricata e algo cómica que ilustra o quão confuso é por vezes ser pai, também alcança proporções, na minha opinião, desnecessárias. Não entendo a razão de submeter a criança a um momento de choro e medo só para os pais possam ter uma fotografia/recordação dos seus meninos com um senhor que – na realidade – eles também não conhecem, mas como está disfarçado de Pai Natal a gente gosta.

Eu sei que todos nós queremos guardar estas recordações na memória e bem junto do coração, mas eu quero-as de momentos de felicidade – quero recordar situações em que os meus filhos se sentiram felizes, seja por um dia ou por cinco minutos, seja por terem uma bolachinha, um amigo para brincar, ou do meu menino de bracinhos estendidos para um patinho no parque florestal, dizendo Vem cá ao colo, pato, vem cá.

Alguns argumentam, Só chora um bocadinho, depois volta a calar-se. Porém os adultos não aceitam que tal aconteça a si mesmos. Eu cá não quero falar nem sequer aproximar-me e muito menos sentar-me ao colo de alguém que não conheça ou não gosto, nem pensar! De modo algum digo a mim mesma: Vou falar com aquela pessoa que não suporto, vou ficar triste, irritada, talvez até chore, mas depois há de me passar.

Ninguém quer fazer isto. Então por que fazê-lo às crianças?

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