Vai um sapatinho de pele?, um casaco de cabedal?

Originalmente publicado em Açoriano Oriental 

Não vale a pena prolongar muito o discurso preambular porque já o hábito está prolongado demais. Produzir acessórios de moda em pele/cabedal não tem rigorosamente nada a ver com um aproveitamento de materiais, recursos, ou lá o nome conscienciosamente tranquilo que queiram dar.

A palavra-chave é moda. E o que nós não fazemos por moda? Há um pouco (pouco: eufemismo) de ridículo associado a modas por todo o mundo e um inventário de desculpas notório. O produto de pele é vendido/comprado por ser considerado um artigo de estatuto, de moda, de imagem, de longevidade. E alguns compram-no por acharem que estão a tomar a opção mais natural possível. A aproveitar o que a natureza dá e tal. Hã hã.

A verdade é que a vaca não dá cabedal, do mesmo modo que não dá leite, nem tampouco carne. Qualquer um desses designados produtos são-lhe retirados contra a sua vontade. E numa atualidade em que tantos recursos há, em que tantos novos materiais há – e sustentavelmente equilibrados -, a necessidade de fazer uma figura pré-histórica do género é nula. Para não lhe epitetar de outra coisa menos simpática.

A indústria dos laticínios representa o maior desperdício de recursos de todos: continuamente insemina milhões de vacas a fim de matar as crias rapidamente para consumirmos uma coisa de que não só não precisamos como ainda nos é prejudicial à saúde; ocupando espaço e gastando água abissalmente. A da carne igualmente, mas pensa-se sempre que beber leite não implica a morte de nenhum animal. Implica sim e daqueles que mais de deve proteger – as vidas novas.

O verdadeiro aproveitamento de recursos tem outro nome. Chama-se reutilização. Chama-se reciclagem. Não se chama cabedal. Não se chama lã. Não se chama angorá. Ninguém que ousa pagar um valor gordinho por artigos pele está a fazê-lo pelo ambiente e muito menos pelos animais, estão a fazê-lo pela própria imagem. Como é que a imagem reluz de usar a pele dum animal morto é que não entendo. Se o propósito nobre fosse o planeta, a opção seria artigos com materiais reciclados ou de segunda mão. Atualmente há tantos produtos já adquiridos que se distribuídos por todos, não teríamos de comprar nada durante algum tempo.

Muitas vezes são empregues químicos nocivos para que o cabedal expresse a durabilidade pela qual é conhecido, não sendo diretamente relacionado com o facto de ser pele – produtos esses que são prejudiciais aos operários mal pagos que os aplicam, e ao ambiente. É caricatamente interessante também que grande parte da pele e pelo vendidos nos mais diferentes objetos de moda foram retirados a animais cujo objetivo não era a alimentação – o único interesse foi mesmo a pele/pelo; a carne é que é eventualmente reaproveitada por restaurantes duvidosos. É igualmente absurdo saber que muito do cabedal em qualquer acessório de qualquer loja provém da Índia.

Da Índia, tenho de explicar mais alguma coisa aqui? A carne é um aproveitamento da moda, não ao contrário. Tal não apenas acontece nesse país nem somente com vacas, há coelhos, coiotes, avestruzes, raposas, guaxinins, e muitos outros a serem caçados meramente pela pele e muitas vezes esfolados vivos. Esfolados vivos. Em que ano estamos?

Esta é a verdade. Mas podia deixar de ser, bastava querermos.

Se já tivermos qualquer coisa em pele, como é provável, no ponto de querermos ativar a mudança, não causa significativa diferença pô-la no lixo agora, só causaria desperdício desnecessário. Eu também tenho sapatos com partes em pele e vou usá-los até ao fim – embora não os tenha de modo algum por ter querido cabedal, mas responsabilizo-me pelo erro até ao fim. Errar ou não saber, acontece a qualquer um. Mas não é disso que se trata.

O que acontece é que queremos ser modernos. Queremos restaurantes, talheres prateados, eletrodomésticos, sommiers, depilação, cabeleireiros e ginásios. Queremos iphones, smartphones, um sapato luzidio, e um café com bolo. No entanto no que toca a carne ou pele, queremos ser homens das cavernas e alegar querer fazer o que faziam. O argumento do passado não pode convenientemente servir para uns aspetos, descurando os outros. Quando um argumento é irrepreensivelmente válido logicamente não apresenta lacuna alguma.

Se uma alimentação com produtos animais é apenas uma escolha, um hábito e um gosto, não sendo nutricionalmente basilar, então como o cabedal poderia ser um reaproveitamento? Não é – é ostentação.

 

PS a imagem de destaque apresenta umas sandálias celta. Hmm quão medievais somos nós…

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