Dúvidas sobre o novo acordo ortográfico

 

Neste post vou responder ao leitor Paulo, que nos comentários do artigo As misteriosas luzes de Ceres, levantou uma questão sobre o novo acordo ortográfico. Antes de prosseguir para a explicação, quero agradecer ao Paulo pela pertinência do seguinte comentário:

 

Segundo aprendi, o c mudo em palavras como arquitectónico ou espectáculo não existiam para serem lidos, mas sim para abrir a vogal, e nesses casos não concordo de todo com o AO, tirando outros casos que mais parece adoptar termos brasileiros.

 

Tal não é cientificamente correto. Como eu disse no comentário anterior desse mesmo artigo, a grafia da língua é apenas uma convenção, e a explicação supradita pelo leitor é o equivalente de dizer às crianças que são as cegonhas que trazem os bebés; assim os professores muitas vezes optam por uma explicação mais simples, para não incorrer em meandros demorados e complexos da língua.

Cientificamente/fonologicamente, a consoante surda c simplesmente não existe nesse contexto. Há um plano em que se observa e se estuda as palavras, sendo esse o nível subjacente, a partir desse ponto a palavra sofre algumas modificações até ao seu plano superficial, que é o proferido pelos falantes. E na verdade, a grafia nem sempre corresponde fielmente ao que pronunciamos – o que articulamos ao falar é o mais real que a nossa língua tem.

As palavras têm vários acentos fonológicos e apenas um gráfico (quando têm), e nós não precisamos de consoantes ou acentos para as proferirmos corretamente. A razão para a presença de sons abertos ou de uma consoante surda prende-se com fatores relacionados com posição fonológica, etimologia e evolução.

 

Notem a palavra arquite(c)to    =    |ɒɾkitέtu| (transcrição fonética)

É formada a partir de 2 termos gregos: arkhi e tekton; e chega até nós através no latim architectus. Como podem comprovar, a consoante em questão pertencia à origem da segunda palavra (tecton). Além disso, quando uma palavra é formada a partir de outras 2, normalmente ambas mantêm o seu acento.

 

Sobre a abertura das vogais, observem a seguinte palavra:

Otorrinolaringologista

Observamos nesse vocábulo a existência de vogais abertas sem precisarmos de acentos gráficos ou consoantes surdas para tal fim. Além disso, se a regra fosse efetivamente essa, teríamos de colocar um c sempre que pretendêssemos marcar essa vocalização aberta, por uma questão de coerência. O que não acontece.

 

Outros exemplos:

Efe(c)tivo

Efe(c)tivamente 

A sílaba acentuada na primeira palavra é na penúltima silaba (segundo e). Depois de a transformarmos num advérbio, a sílaba tónica avança umas casas, mantendo-se novamente na penúltima sílaba (men), porém o acento fonológico  no segundo e mantém-se.

 

Agora vejam estas:

Pausado

Pausadamente

Reparem que nestas acontecem o mesmo fenómeno, mesmo sem a presença da consoante em causa.

 

Vamos a mais umas palavras:

A(c)tividade

A(c)tual

Nestas palavras a utilização do c não tem como fim a abertura da vogal, o primeiro a é pronunciado de modo mais fechado (vogal média).

 

Vamos ver outras:

Afe(c)tivo

Sele(c)ção

Travessa

Palavra

Eliminada

Qual é a vogal aberta? É a que corresponde à penúltima sílaba, são palavras graves. E como podem ver nesses exemplos, as palavras graves, acentuação essa que é a mais comum na língua portuguesa, não necessitam (na maior parte das vezes) de nenhuma demarcação especial, seja uma consoante que não é pronunciada ou qualquer outra. Nestes exemplos, a vogal em questão seria articulada mais abertamente (vogal baixa) mesmo sem a presença do c.

Nota: o ç e o ss fonologicamente são precisamente a mesma coisa (fonema: /s/). Como argumentei, a grafia é apenas uma convenção.

 

Quanto à ideia de que estão a manipular a língua para a assemelhar ao Português do Brasil, não concordo. Mas quero reservar ao Paulo todo o direito de ter a sua opinião e mantê-la.

A variante brasileira também sobre modificações e cedências e, creio que em suma, o mais importante é a força e projeção que se pretende dar à nossa língua. Que embora seja diferente em várias partes do mundo, é sempre a mesma, é português.

Considerando muito rapidamente um pouco de história da língua, o português do Brasil tem ainda marcas da língua que nesse país instaurámos em 1500. Logo se as nossas objeções dissessem respeito a uma fidelização de cultura e raízes, o mais coerente e lógico seria mudarmos mais as nossas palavras e pronúncia para nos aproximarmos dessas origens – que o português do outro lado do Atlântico mantém.

No entanto, parece-me curioso que utilizemos outras expressões naturalmente brasileiras sem que ninguém se oponha, como diz o artista: Somos os tais que viraram pais. Virar (tornar-se) qualquer coisa não é uma expressão nossa. Ah e as Caipirinhas? As vontades nacionalistas cedem facilmente a esta, o pessoal quer é bebê-las sem se importar se em Portugal se deveria dizer ou não que é cachaça com limão. E gelo. Faxina também já cá entrou, certamente já terão ouvido alguém comentar que (infelizmente!) está de faxina.

Se soubemos navegar, conquistar e colonizar meio mundo, que saibamos agora manter por mais tempo uma das sementes de realmente subsistiu até hoje: o português.

Diferente ou não, continua a ser português.

 

Se ainda tiverem dúvidas sobre este ou outro aspeto, comentem abaixo, e eu vou fazer o meu melhor para as poder esclarecer.

2 comentários Adicione o seu

  1. Paulo diz:

    De facto estava equivocado em relação à consoante muda usada para abrir a vogal.

    Deixo dois links para leitura que considero importantes para leitura:
    https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/espetador-e-espectador-consoantes-no-ao/30655

    Falando de cultura e raízes temos:
    http://observador.pt/opiniao/o-imperio-ortografico

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Ainda bem que pude ajudar a esclarecer esse ponto. Se tiver outras questões, pode colocá-las à vontade.

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