Filhos da puta

A minha mãe esteve sempre comigo.

Levava-me e ia buscar-me à escola. Conversava e ria comigo. Levava-me a passear, fazia jogos comigo, desenhava casas comigo – que eu adorava –, não ia para onde não me pudesse levar com ela. Esteve lá para me levar de criança a adolescente. No entanto, nessa altura, não estava tanto lá como dantes, não era conveniente à minha faixa etária, caracterizada por tantos pressupostos idílicos de deter e conhecer intimamente a razão do mundo, que me apresentasse sempre na companhia da minha mãe. Ela esperava com eupatia ao postigo pelos momentos em que o meu mundo de adolescente desabaria. E então ela estava lá de novo, para mim. Tinha sempre as palavras certas ou os silêncios indicados para me fazer voltar a sorrir, respirar fundo, renovar-me e prosseguir. Ela preenchia-me de forças novas e frescas. Ensinou-me a ser justo. Verdadeiro. Trabalhador. Amigo. Fiel. Às vezes eu não entendia porquê, já ninguém era assim.

Foi ela que compôs a minha autoestima e confiança. Ela erigiu a minha segurança.

Logo pela manhã, preparava-me uma refeição régia: pão fresco, compotas, queijo, leite quente, bolo… No entanto, tinha de preparar a minha comida e ajudá-la a levantar a mesa e a lavar a louça. Porque quando crescesse e saísse de casa, já não seria o filho de quem se trata, mas sim o homem. Independente, e que poderá estar no lugar dela. As restantes refeições eram da mesma forma cuidadas, embora por vezes não comprazessem a minha rigorosa aprovação. É que me deparava com uma mesa, muito bem apresentada, todavia carregada de travessas com muitas coisas verdes. Mesmo muito verde, a sério… E ela obrigava-me a comer aquilo. E dizia-me pacientemente, Quero que tenhas toda a saúde do mundo, tens um futuro luminoso à tua espera, e não é com pizzas que vamos conseguir isso. Oh que raio… As pizzas até têm tantos legumes, pimentos, cogumelos, azeitonas, tomate… Assim as concebia eu na altura. Também nunca percebi essa coisa do futuro luminoso. Seria eu eletricista?

Contudo, em dias especiais fazia-me todas as comidas de que eu mais gostava. E nos meus dias de aniversário? Era um banquete a sério e não havia nada verde, para além dos balões. Nesse dia a minha mãe não trabalhava, convidava amigas, filhos das amigas, sobrinhos, os primos chegados, os primos afastados, só não iam os meus amigos da escola, e demorei bastante a perceber porquê. Porém olvidava essa minudência com facilidade. Nesse dia, eu era o menino mais feliz do mundo.

Nunca conheci os meus avós. Os pais da minha mãe morreram quando era ainda pequeno e os do meu pai nunca soube quem eram. Nunca soube também quem era o meu pai. Nem quis saber. Quando atingi a idade para compreender determinados assuntos, a minha mãe explicou-me racional e sensatamente que o meu pai tinha escolhido um caminho que não nos incluía a nós. Olha, bem bom! Porque é que eu quereria conhecer alguém que nunca me quis conhecer? Mas nós desejamos-lhe boa sorte, rememorava a minha mãe.

Sim, pois.

Quando eu falava ela ouvia-me. Ouvia-me. Quando me tornei adolescente e não podia ser visto com a mamã, ela deixava-me ir sozinho, estar sozinho, e esperava por mim, aguardava que chegasse e lhe contasse o que tinha feito ou onde tinha ido. Era só o que ela me pedia, contudo sublinhava que não se importava se eu não quisesse falar sobre isso. Eu contava-lhe. Pedia-me tão pouco por tudo o que me dava.

É claro que era só a minha mãe que trabalhava, mas ela fazia-o de sorte que não me faltasse nada. Tínhamos uma casa, um carro (para uso necessário dado que ela sempre insistiu em proteger o ambiente), animais de estimação, contas pagas e alguns mimos de que todos nós gostamos.  Com contenção, dava-me tudo o que os filhos de casais a sério tinham – não queria que fosse diferente dos outros em nada. Todavia advertia-me sempre As pessoas não são o que têm nas mãos, são o que têm na alma.

O que eu tinha na alma era a minha mãe. Não só por tudo o que fazia, mas porque não me restava muito mais na verdade.

Os meus amigos – aqueles que não iam às minhas festas – mantiveram-se sempre esquivos à minha presença. Recordo que, em criança, fui a casa de um colega para brincarmos. No mesmo momento em que abriu a porta, fechou-a também. Houve uma outra vez em que uma colega tinha estado doente e fui ver se estava melhor, porém quando soube que era eu, ignorou a minha presença. Evidente era que ninguém quisesse agrupar-se comigo para os trabalhos escolares. Tinha de ser a minha mãe, uma vez mais, a fazê-lo. Aconselhava-me a imaginá-la como uma amiga de uma outra escola. Ela era tão divertida que a quase conseguia esboçar no meu imaginário como alguém da minha idade. E ela teve de o fazer várias vezes. E eu demorei a entender o motivo da repugna deles.

Até que desisti, de tentar, de perceber. Renunciei ao que eu pensava ser uma tentativa de integração ou aceitação. Todavia antes de desistir, chorei, revoltei-me, insurgi-me contra uma coisa em mim que nem eu sabia o que era. Mas eles sabiam, e não a suportavam. A minha mãe, vera amiga, dizia que no futuro eles se iriam arrepender, que o futuro iria garantir que tudo tomasse os devidos lugares, que a razão fosse alcançada.

E a conversa do tal futuro outra vez. De qualquer modo, eram frases reconfortantes e como ela acreditava visceralmente nelas, também o fiz. Creio que não tinha mais a que me agarrar.

A minha mãe só trabalhava à noite e eu notava que durante o dia carregava umas olheiras negras e incrustadas, um cansaço devassador, porém desenterrava força não sei de onde para estar presente e atenta durante o dia. Se bem que por vezes quase adormecia enquanto cozinhava. Ou chorava enquanto limpava a casa. Era, com frequência, amassada por uma fadiga várias vezes mais massiva que ela. Nunca me disse para onde ia trabalhar à noite, dizia que não era importante o que fazia quando não estava comigo nem o que fazia ou dizia a pessoas que não fossem eu. Às vezes chorava também quando estava sozinha em casa, todavia assim que eu chegava, limpava os olhos, levantava-se prontamente e mostrava-me um sorriso aberto, feliz e sincero, que me fazia sentir que o sol brilhava musical e arrebatadamente, mesmo que estivessem a chover pedras de basalto triste. É claro que eu percebia que havia algo amargurado nela, ela não o negava, mas assegurava-me que por mim tudo valia a pena. Apesar de parecer que ela só vivia para mim, não se descuidava consigo. Tinha sempre o cabelo escovado e fresco. A pele macia e cheirosa. Roupas engomadas e limpas. Eu dizia-lhe És vaidosa, tu! E ela dizia-me que por eu existir na vida dela, fazia com que gostasse mais de si, e que também eu não podia chegar a casa e dar de caras com uma mãe que parecia ter fugido de um aterro sanitário. E então percebi, ela não vivia para mim, vivia por causa de mim.

Eu queria que ela se orgulhasse de mim, quis ser sempre o que ela me ensinou e sempre tive excelentes notas no meu percurso académico. Quanto aos meus amigos, não só eram esquivos, como também maliciosos. Dizia-me que a minha mãe não prestava – como vulgar e mesquinhamente se comenta –, que ela nem me tinha dado um pai, que eu era como ela e não prestava também. Como podiam dizer isso? Como podiam eles acusar a minha mãe disso, sem nunca trem conversado com ela uma vez que fosse? Aliás, elas nem com os próprios filhos falavam muito.

Paciência. Eu não queria a amizade deles, eles nem amigos de si próprios eram. Eram tudo o que a minha mãe me ensinou a não ser ou a não fazer e, de facto, para quem assiste do lado de fora, que incita sempre à clareza e imparcialidade, aquilo que eles faziam era algo defeituoso. Eles próprios não nadavam na perfeição. É interessante como uma pessoa que parece bonitinha, ao revelar-se como mentirosa, cínica, hipócrita se torna tão disforme.

Os pais desses meninos amorosos também me discriminavam. Uns atrás dos outros, umas vezes uns, outras vezes outros. Muitos desses meninos não transitava sempre de ano letivo como eu. Não. Aquelas notas eram muito repuxadas e frequentemente isso não era suficiente, mas era o melhor que podiam comprar. Assim, ano após ano, vinham novos colegas para me avassalar, assim pensavam eles.

Concentrei-me nas pessoas das festas de anos, que também estavam presentes no natal, páscoa, final do ano letivo, ou sempre que eu espirrava.

Foi esse mundo correto, genuíno e à parte que a minha mãe para mim criou que me fez ser o que sou agora e chegar até aqui. Até hoje. Trabalhei, estudei, tornei-me arquiteto e fui o melhor do meu curso. Não o digo para me elogiar, porém para provar que realmente as coisas tomaram o seu lugar, a justiça teceu-se na minha vida. Agora os meus olhos veem o que a minha mãe via. Agora percebo.

Sou arquiteto e confesso que sou bem pago. Muitos dos tais colegas agora já querem ser meus amigos. Bem… Estão a ver aquele café ali à frente? Digo-lhes. Vão andando que já lá vou ter. E sigo com a minha vida, na direção oposta ao estaminé.

O que me pagam é para a família que eu criei, e para ajudar as famílias como a que a minha mãe me deu: que se subjugam a sacrifícios e à dor para que consigam dar aos filhos o que eles não tiveram.

A minha mãe não me deu tudo o que tinha, deu-me tudo o que não tinha, que não pôde ter.

Agora já sei o que a minha mãe fazia à noite, já sei porque diziam o que diziam dela, já sei porque me chamavam filho da puta.

Porque a minha mãe era prostituta.

E o que é que eu tenho a ver com o trabalho dela, com o que ela faz ou diz quando não está comigo, se comigo ela era perfeita? Se fez de mim o homem que sou, que faz a sua mulher e filhos felizes, que faz felizes aqueles que precisam de ajuda e cuja felicidade aos seus olhos mendigos se parece mais com um luxo do que com um sentimento que dá sentido à vida?

Eu sou feliz, justo, verdadeiro, trabalhador, amigo, fiel.

Talvez sejam eles os filhos da puta.

 

Um comentário Adicione o seu

  1. Ana Costa diz:

    Adorei! Tão verdadeiro, lindo.

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