Homeopatia. Ou homeoburla?

Originalmente publicado em Açoriano Oriental 

 

Lamento se o início desta crónica parece algo brusco, mas não acredito que devamos adoçar mais a pílula – pois para tal já temos o funcionamento da prática, que tem a mesma eficácia de um comprimido de açúcar, residindo absolutamente no efeito placebo.

A homeopatia assenta em alguns princípios, se é que podemos denominar tal coisa a fundamentos tão bizarramente irracionais – não esquecendo nunca que surgiu num tempo em que o conhecimento científico era uma zona algo inóspita, na qual ainda se prescrevia medicamente a pacientes a ingestão de substâncias químicas como mercúrio ou arsénico. E apesar de os homeoapologistas tentarem estabelecer essas bases de forma aparentemente séria, juntando outros motivos e exposições a jeito, a descrição desta tendência assemelha-se sempre a um terreno de absurdos. Para começar, há o fundamento (?) de que o semelhante se cura pelo semelhante. Isto é, se determinado ingrediente ativo fosse capaz de causar uma reação numa pessoa saudável, então seria indicado para quem sofresse de uma condição relacionada. Assim: se um ingrediente incitar dores nos joelhos de uma pessoa sã, então será o aconselhado para curar as dores efetivas nos joelhos de outra pessoa; e para o conseguir basta beber água. Só água? Sim, e agora é que começa a verdadeira brincadeira.

A composição dos remédios (?) homeopáticos consiste na diluição em água (muita água!), em passos de 100 vezes, de um ingrediente ativo em doses infinitesimais, submetendo-o de seguida a sucussões rítmicas. Para uma composição 1C, devíamos misturar 10 ml de uma substância ativa em 990 ml de água. Para fazer um preparado 2C: 1 l para 99 l de água. Para um remédio 10C, por exemplo, a substância da cura já terá sido diluída em mais água do que a existente em todos os oceanos da Terra. E imaginem: para um medicamento 30C, a probabilidade de se ainda encontrar uma única molécula do ingrediente inicial é inferior a 1 em 1 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000. Mais sucintamente: é impossível. Isto é ridiculamente conveniente aos propulsores desta moda alternativa, dado que vendem a preço de ouro frascos de água apenas com a recôndita sugestão da eventual, mas pouco provável, existência de um certo ingrediente, acrescentando ainda, depois de tanto antilogismo consecutivo, que quanto mais dissolvido for, mais eficaz será. Se é para isso, bebo um copo de água da torneira quando tiver dores de cabeça.

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Mas os disparates ainda não cessaram. O pessoal alegadamente conhecedor destes procedimentos, para os quais não há prova nenhuma (nenhuma!) de que resultem, gostam de afirmar que a água tem memória daquela quantia ironicamente irrisória de sabe-se lá o quê, sendo assim que poderá funcionar e curar qualquer maleitazinha. Então, já que a diluição potencia o efeito e a água tem memória, imagino que esteja incluída num frasco homeopático a reminiscência de todos os esgotos pelos quais a água passou, de todos os excrementos com que já contactou, provavelmente extremamente reforçados, segundo os próprios argumentos de quem difunde estes métodos. Todavia, segundo dizem, as poções são sujeitas à tal agitação enérgica e assim se salvaguarda apenas a memória do que interessa e é benéfico. Oh por favor… Tudo isto poderia ser resumido numa palavra: insulto. Isto é um insulto à inteligência e ao conhecimento.

Não há prova alguma resultante de (muitos) testes clínicos que a homeopatia possa realmente funcionar. Os resultados estão inteiramente dependentes da capacidade de acreditar incondicionalmente em sugestões veementes e ardilosamente promovidas. É interessante mencionar as várias tentativas de suicídio (a título de protesto) com remédios homeopáticos para dormir, cujo rótulo apela cuidado com casos de sobredosagem, alvitrando para contactar um centro de antiveneno de imediato. E sabem o que aconteceu às pessoas se submeterem às overdoses homeopáticas? Nada, rigorosamente nada. Simplesmente porque não acreditam que funcione. Porque o que funciona deveras é a nossa capacidade de querer e de acreditar. Não a homeopatia.

 

 

 

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