Indelevelmente

Publicado originalmente no Açoriano Oriental de 29/12/15

 

 

Vamos os dois em silêncio – sem necessidade de o preencher, de o perturbar, sem mais precisar. Tu não gostas muito de falar, e eu nada quero ouvir. Temo-nos a nós e ao momento e isso parece bastar. Não tenho de fabricar conversa de ocasião, polvilhada de lugares-comuns entediantes, basta-me andar e sentir na minha mão a tua a roçagar.

Não me impões beijos vulgares dos que tem de se dar à chegada e à partida, à chegada e à partida numa tradição reducionista de inválida substancialidade na minha vida. Para quê esse padrão de beijo então? Para nada, para igualar a reputação, para amaciar a convenção – à qual a minha resposta é sempre não. Como tu sabes, como tu gostas.

Continuemos a andar. Não temos de falar do dia, confrontar opiniões, rever a nostalgia ou ceder a obrigações. Continuamos a andar. E a tua mão quente na minha a roçagar. Se quiser, falo pelo olhar, constróis uma resposta num sorriso silente, e eu nem tenho de falar. Não há nada que queira dizer, nada que queira ouvir, nada de que queira conversar, nenhum tópico a discutir. É um vazio cheio de tanto para sentir. Sem nada a esperar, nada a pensar, quão menos justificar.

Podemos fazer qualquer coisa sem tempo a vacilar, os terceiros considerar e muito menos a coletividade consultar. Fecha-os lá fora, não os quero a entrar, não os quero outra vez a falar. Eles não são como nós, deslaçados dos conceitos de estipular, de etiquetar, do inexplícito amestrar. E eles estão sempre sempre a falar…, empalando uns nos outros presunções tão consistentes quanto o ar.

Já os ouviste falar de tolerância? É uma tolerância nula, tolerância cega. Tolerância convencionada e excelsamente inventariada. Que é ensinada mais ou menos, todavia praticada muito menos. Uma tolerância exibida, porém de razão espontaneamente distorcida. Às vezes toleram quem está longe, às vezes quem está perto, perduravelmente em alternância, servindo à vez a tal tolerância.

É só um exemplo, já te disse que eles estão sempre a falar, ambicionando argumentar, num tu quoque tenaz que o despropósito volúvel tenta exculpar. Não faz mal, deixa-os ficar com as admoestações, com as plagiadas opiniões, com as ilegítimas traduções.

Continuemos a andar, deixa-os ficar.

 

 

 

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