Mitos da astronomia (-física)

 

Informação errónea sobre questões de astronomia e/ou astrofísica prolifera desmesuradamente. Para que consigamos salvaguardar a nossa intelectualidade pelo menos a nível científico, vamos deixar aqui uns esclarecimentos sobre alguns mitos do espaço, com umas notas de bom humor.

 

O Sol não tem rotação.

Tem sim, a qual pode ser evidenciada através da observação de manchas solares. Porém a rotação do sol não se assemelha a de um corpo sólido, tem rotação diferencial. Ou seja, a rotação solar é mais rápida no equador, e mais lenta nos polos. Os planetas gigantes gasosos como Júpiter e Saturno, ou outros que andem aí por fora, têm também esse género de rotação. No equador o sol completa uma rotação a cada 27 dias, mas nos polos somente completa uma rotação a cada 31 dias.

 

As órbitas planetárias são circulares.

Nem por isso. Mas muitos astrónomos antigos acreditavam que sim, por lhes parecer que desse modo fosse mais natural.

Entretanto, com o decorrer dos séculos, apareceu um senhor chamado Kepler que descobriu as Leis do Movimento Planetário, e em sequência dessa descoberta, o natural já não seriam as órbitas redondas, mas sim elípticas.

Órbitas naturalmente circulares são raras. Por exemplo, no caso dos satélites artificiais só é possível conseguir uma órbita deste género através do controlo perfeito de todas as variáveis.

 

Vénus e a Terra trocaram de órbita.

Não, não trocaram, estão, como sempre estiveram, cada um no seu lugar. Há quem tenha proposto a ideia de Vénus ter sido parte de Júpiter que de alguma forma teria sido projetada para longe, vagueado pelo Sistema solar, e ter finalmente assentado na sua órbita habitual. Mas não há nenhuma evidência científica, portanto o melhor é pôr de parte esta teoria da passeata de Vénus.

 

É possível que Plutão colida com Neptuno quando as suas órbitas se cruzarem.

Não, não é possível. A 11 de fevereiro de 1999, a órbita de Plutão cruzou a de Neptuno, sendo Plutão momentaneamente o 8º planeta (-anão) desde o Sol, o que acontece a cada 228 anos. Apesar desta troca de lugares temporária, eles nunca colidem. A órbita de Plutão é elipticamente inclinada em 17 graus, portanto quando as órbitas se cruzam, Plutão atravessa-se por cima da órbita de Neptuno. Por outro lado, estes planetas estão em órbitas ressonantes, e em órbitas deste género os corpos nunca se aproximam, o mais próximo que estes ficam um do outro é a 2 mil milhões de km. Atribui-se a denominação de órbitas ressonantes  quando é possível descrever o período orbital de um planeta em função de outro. As órbitas de Neptuno e Plutão são ressonantes num fator 2 para 3 (3:2), ie: por cada 3 órbitas de Neptuno, Plutão completa 2.

 

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Plutão é um planeta.

Plutão está classificado como um planeta-anão, embora existam opiniões afeiçoadas à crença de que Plutão é ainda pertencente à categoria de planetas. Na verdade, a categorização de Plutão sempre foi problemática para os astrónomos, e com a descoberta dos objetos transneptunianos, tornou-se imperativo a reconsideração da sua denominação.

A definição de planeta é a seguinte, na qual Plutão não se enquadra totalmente: deve ser um corpo que orbita uma estrela, ter massa suficiente para que seja um corpo equilibrado hidroestaticamente, e deve ter limpo a sua órbita de corpos menores.

 

Os buracos negros vão consumir toda a matéria do Universo.

Não vão nada, podem dormir descansados. O que os buracos negros são podem ver aqui. Quanto ao que não são, posso desde já assegurar que não são ralos cósmicos para onde vai toda a matéria do Universo. Lá nada.

O destino de buraco negro só está reservado a algumas estrelas, e quando tal acontece, só absorvem o que atravessar o seu horizonte de eventos. O que elimina já a possibilidade de abordarmos de seguida este mito: Um dia o buraco negro no centro da Via láctea vai deglutir a Terra. Lamento informar que a resposta é não, tal não vai acontecer pois Sagitário A* não está suficientemente perto da Terra, nem do Sistema Solar, para que o consiga fazer.

 

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A Terra é redonda.

Não, não é. É ligeiramente mais alargada junto ao equador, e abaixo do equador é ainda um pouco mais do que acima.

 

A estrela mais brilhante do céu é a Polar.

Não, a estrela mais brilhante do céu é o Sol. No céu noturno é Sírius, na constelação de Cão Maior.

 

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No lado oculto da Lua é sempre noite.

No lado oculto (para nós) da Lua não é sempre noite. A Lua e a Terra estão em rotação sincronizada, ie, o tempo que a lua demora a rodar sobre o seu eixo corresponde ao tempo que demora a orbitar a Terra, pelo que essa harmonia orbital impede-nos de ver o seu outro lado. Porém, não é impeditivo que o sol nasça  nesse lado secreto para nós – toda a lua é banhada pela luz solar à medida que desenvolve a sua rotação.

Mas como esta pode ser confusa, nada melhor do que dar uma espreitadela aqui.

 

A lua é oca.

Não há prova nenhuma disso. É um mito que teve origem no livro Os primeiros homens na Lua, de H. G. Wells, tendo sido continuado por mais exemplos de literatura do género que se seguiram.

Há quem intente argumentar que a Lua é oca devido à sua baixa densidade, e à atividade sísmica provocada pela alunagem da Apollo 12. No entanto, a causa mais que provável dessa densidade inferior é a seguinte: a formação do satélite foi originada, decorrente de um grande impacto, a partir de material das camadas superiores da crosta da Terra, sendo este de menor densidade.

Além disso, estudos sísmicos, como cálculos de momento de inércia e estudos de gravidade mostram que a Lua tem um interior semelhante ao da Terra.

 

As estações são causadas pela variação da distância da Terra ao Sol.

Não, não são. É a inclinação de 23.5º da Terra sobre o seu eixo que origina as estações. Essa obliquidade torna possível que a luz solar seja mais incidente e projetada de modo mais direto para hemisfério apontado para a estrela em determinada altura do ano. À medida que a Terra efetua o seu movimento de translação, esta característica do eixo do planeta torna possível ao hemisfério que recebe essa incidência de raios solares alterne, dando origem desta forma ao verão num hemisfério e ao inverno no outro.

 

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Os ETs têm visitado a Terra.

Sim, vêm cá beber leite com chocolate e levam umas couves porque lá onde vivem não há.

Não há prova nenhuma de que os ETs nos visitem, ou tenham visitado anteriormente, a Terra. Estórias há muitas, provas ainda não recolhemos nenhuma – quanto a imagens alienígenas que circulam pela Internet, a maior parte delas é forjada.

Um ponto forte a favor desta noção é o facto de os astrónomos amadores passarem infinitudes de horas a olhar para o céu e não reportarem avistamentos de OVNIs.

 

Eu diria que é a fantasia aliada a falta de informação adequada e a algum folclore, impregnados de argumentos vazios, que resultam na grande vulgarização de boatos que em tanto dificultam a consolidação de um pensamento acurado e científico.

 

Com a ajuda de Luís Filipe Santos

 

 

 

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Hugo diz:

    Parabéns pela divulgação da verdadeira informação. Continuem com o excelente trabalho 🙂

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Muito obrigada, Hugo. 🙂

  2. Manuel diz:

    Como sempre, gostei bastante.
    Há realmente mitos inacreditáveis!

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Tem razão, há ideias que em até é difícil acreditar…
      Obrigada, Manuel.

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