Novelas: quão más conseguem ser?

Publicado originalmente no Açoriano Oriental de 1/12/15

 

Vamos fazer uma breve pausa na veemência das últimas crónicas, ocasionando agora a leitura de um tema de entretenimento. Mas saliento que o intervalo é momentâneo, pois vou retomar alguma seriedade de conteúdos rapidamente. Até o medonho acordo ortográfico haverá de ser novamente tema. Assim sendo, falemos de novelas. Gostemos ou não, elas andam aí, pelo que parece a sua presença é perpétua – e a sua repetição de assuntos também.

Já vi uma novela ou duas, admito que sim – não é informação que abone muito a favor da minha intelectualidade, contudo é verdade. No entanto, há alguns anos que não o fazia, ao que parece perdi derradeiramente o interesse de submeter o meu cérebro a massacres estupidificantes. Felizmente.

Mas um dia desses passei por uma TV na qual uma novela passava, e a verdade mais pura é que me senti atónita. Quase catatónica mesmo. Depois desses anos, creio que aceitei como noção pessoal, de alcance dogmático no âmago da minha consciência, que esses episódios de contestável entretenimento tivessem evoluído – eu sei!, que estranha ideia a minha, não é? Se todas as áreas que são alvo do meu interesse progrediram, logo seria de esperar que o mundo que deixei no exterior da minha atenção primordial também o tivesse feito, não? Coerentemente a resposta seria sim. Todavia não foi o que aconteceu.

Mais à esquerda ou mais à direita, as novelas continuam precisamente na mesma. E eu nem compreendo o motivo de alguns espetadores recearem perder um episódio, pois se virem um outro capítulo de uma outra novela anos mais tarde, a estória continua a ser monótona e ridiculamente a mesma.

Vira o disco e toca o mesmo.

 

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Não? Sim sim, ora pensem bem: triângulos amorosos, paixões não correspondidas, casa não casa, divorcia não divorcia, trai não trai, finge que gosta/finge que não gosta, fica com a herança/não fica com a herança, disse que disse que não disse que era que não era que a amiga da prima do colega de trabalho do vizinho disse que viu sabe-se lá o quê numa noite sem eletricidade e sem lua quando nem tinha os óculos na cara, mentiu/não mentiu, choram baba e ranho, apoquentações ao rubro, querem sexo mas não podem/podem mas fingem que não querem, volta ao mesmo: finge/não finge (= é mentira/não é mentira),está grávida/não está grávida, o filho é dele/o filho não é dele, vai ser promovido/não vai ser promovido, engana/não engana, tem dinheiro/não tem dinheiro, tragédias comezinhas, acidentes forjados. E a lista já vai longa, portanto vamos cessar as superfluidades por aqui. Ah e o fim é sempre uma revelação inesperada e ostensiva da profundidade dos seres humanos e dos seus conflitos internos: casam, têm muitos meninos e acabou.

Se é para acabar sempre assim, eu sugeria que começassem já por aí e poupava-se todo este tédio hediondo.

Neste momento, há sempre alguém que diz: “Tinha de ser assim para haver estória para contar”. Ao que respondo: Estórias dessas o melhor é nem contar. Também há quem objete: “Mas são coisas que acontecem”(esta é bastante batida). A minha resposta: É verdade, pois acontecem, mormente nas novelas, aí há ocorrências deste género a dar com um pau efetivamente.

Aliás, até consigo estabelecer um paralelismo entre toda esta lengalenga das novelas e o raciocínio lógico, desempenhando essas séries televisivas o papel de falácia lógica Ad populum. Isto é, um erro mal conceptualizado e mal validado de pensamento que invoca a popularidade de uma ideia, com o objetivo de que muitas pessoas concordem com ela, visando a sua legitimação. Não é por as novelas serem tão populares que são boas – popularidade não implica qualidade.

E a questão da visualização de reality shows é semelhante a esta – só que pior. Uns piores que outros ou não, qualquer um deles nos enche a cabeça de vazio.

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