O baile das Presidenciais

Originalmente publicado no Açoriano Oriental de 25/01/16

 

No momento em que estou a escrever, não sei ainda o resultado das Presidenciais. Mas receio que o desfecho eleitoral se encontre entre as três saídas habituais: a abstenção e outras duas opções dos contextos mais proeminentes. Apesar de o saber, não consigo coibir a esperança de um dia ser surpreendida.

Também sei o que mais houve nas campanhas eleitorais que acompanhei pela Rádio: rimas, cantigas e muitas musiquinhas. Ou seja, deram-nos baile até mais não. O que não é segredo para ninguém que o façam, todavia agora parece ter-se formalizado como parte integrante e essencial na condução ideológica do eleitorado. Canta-se uma música sonante que penetra pelo ouvido adentro mesmo que não queiramos, ela instala-se senhora do seu nariz no nosso vulnerável subconsciente, e no dia da cruzinha e lá vai o nosso voto inadvertidamente para os cantadores.

É que nem pensar. Tirem lá o cavalinho da chuva de votos.

Não só houve cantoria, como também a presença de Falácias da argumentação se fez notar. Constatei o recurso a Ad hominem (ataque ao adversário), havendo candidatos que parecem ter dedicado a sua missão à destruição do opositor. Não consigo evitar indagar-me em que posição ficariam os cidadãos de ideologias diferentes após a vitória desta equipa, já que a luta desses iminentes representantes se focalizou em demolir o que divergia da sua visão – ao invés de reunir a nação num projeto comum, incluindo até mesmo os concorrentes do(s) lado(s) oposto(s).

Muitas falácias de Apelo à autoridade também desfilaram de braço dado com alguns candidatos, que exibiram calorosamente as personalidades que publicamente quiseram apoiar as suas candidaturas. Como se isso justificasse alguma coisa. Notou-se de igual modo um Apelo ao género, atrevo-me eu a batizá-lo assim, método que inspira as mulheres a efetuar um voto que fará com que se revejam na mulher Presidente. Quanto a este aspeto, devo dizer que muito me apraz ver mulheres como candidatas à Presidência, ou outros cargos e iniciativas de grande importância; há anos atrás não nos era permitido votar, nem mesmo conduzir (entre outros), sendo realmente louvável o caminho de trabalho e perseverança que temos percorrido até aqui chegar. No entanto, quando ouço algo do género “É a oportunidade de as mulheres se verem representadas…”, não sou capaz de evitar opinar: Interessante, nunca pensei que eu, como mulher, não estaria devidamente representada como cidadã caso votasse num homem…

Entre outras falácias correlacionadas com popularidade, emotividade, estratégias distrativas/de entretenimento. E por aí em diante.

Repetitivo e já de esperar foram as prosódias, as retóricas, as poesias simplistas, as repetições linguísticas e os discursos muito compridos e ininteligíveis (daqueles que também eu faço quando não tenho nada de substancial a dizer e quero simplesmente distrair o meu interlocutor), todos de natureza tipicamente política, servidos com – como não podia deixar de ser – uma cantilena de sonoridade cativante e tradicionalmente popular: porque aquando do momento da cruz, todos os candidatos se lembram que são do povo.

E hoje, dia em que este texto sai, dia em que já sabemos a soma dos nossos votos, será que os candidatos ainda pertencem ao povo, ou somos nós que estamos mais uma vez nas mãos deles?

 

 

Um comentário Adicione o seu

  1. Gonçalo diz:

    Muito bom! Com toda a razão, totalmente de acordo. Parabéns e continuação de um bom trabalho!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *