O Efeito Forer (e lamechices supersticiosas)

Originalmente publicado em Açoriano Oriental

 

Há algum tempo, falei-vos da linda balela que é a astrologia, bem como o são outras áreas similares, nas quais o staff (ir)responsável nos brinda com discursos tão plenos de… absurdos. Todavia tenho algo para vos revelar. Considerando o tipo de temáticas aqui apresentadas, as vossas preferências e aspetos que possam ter em comum, talvez consiga atrever-me num esboço preditivo da personalidade padrão dos leitores – à laia astrológica. Ora vejamos se estou certa.

O Caro leitor tem necessidade de que as pessoas gostem de si e o admirem, mas é crítico consigo mesmo. Apesar de ter algumas debilidades na sua personalidade, geralmente consegue compensá-las. Tem uma capacidade significativa que ainda não aproveitou. Disciplinado e com autocontrolo, tende a preocupar-se e a ser inseguro por dentro. Por vezes duvida se tomou a decisão certa ou se fez a coisa correta. Prefere algumas mudanças e variedade e fica insatisfeito com restrições e limitações. Orgulha-se de ser um pensador independente e não aceita as opiniões dos outros sem provas satisfatórias. Mas acha que é mais inteligente se não se revelar demasiado aos outros. É extrovertido e sociável, mas há momentos em que é introvertido e reservado. Por fim, algumas das suas aspirações tendem a ser irrealistas.

Então, estarei certa? Sente-se descrito nas palavras acima?

Possivelmente. Contudo não passa de um truque, que explico já de seguida. Em 1948 o psicólogo Bertram R. Forer entregou a cada um dos seus alunos um teste de personalidade, dizendo-lhes que posteriormente iriam receber uma análise única e individual baseada nos resultados. Os alunos deveriam avaliar a exatidão da observação numa escala de 0 (muito má) a 5 (muito boa). A verdade é que todos receberam o mesmo texto: o apresentado acima. Como seria de esperar, a maioria deles acreditou que tais noções de personalidade teriam sido concebidas para cada um singularmente. As notas atribuídas pelos estudantes alcançaram uma média superior a 4.

A este fenómeno dá-se a nome Efeito Forer, o qual consiste em acreditar que determinada apresentação foi criada especialmente para nós, enfatizando os nossos melhores aspetos – com especial relevo para pormenores que tão bem guardamos nos recantos dos nossos pensamentos e emoções, fazendo-nos sentir tão… peculiares e importantes. Todavia não passa de uma conceptualização abstrata que pode servir a qualquer pessoa, basta que esta pessoa acredite e, ao fazê-lo, haverá sempre uma característica ou outra (se não todas) que fazem com que sinta que lhe estão a ler a alma. Quando não estão, de todo.

A reprodução desta estratégia é abundante. Horóscopos, tarot, quiromancia, leitores de alma, psíquicos, e restante parafernália enganosa do género, andam todos em redor da mesma forja da (des)ilusão. Até aqueles com menos informação e um índice mais baixo de alfabetização, sem a mais recôndita noção do Efeito Forer, o podem fazer. Para tal é suficiente alguma sensibilidade e atenção ao processo ação-consequência (que se adquire na infância), pois ao se aperceberem de que certas repetições surgem o efeito desejado, originando o retorno de fiéis com mais dinheiro na mão, então rapidamente entendem o que têm de fazer.

Pois infelizmente há uma eloquente propensão para o deslumbramento resultante de misticismos enigmáticos. E os ilusionistas (eufemisticamente) pedem-nos para acreditar, pedem-nos para nunca questionar, recusando mesmo a possibilidade da mais ínfima explicação. Por que a verdade é que não há nenhuma, há somente uma mentira.

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