O fim do mundo (blá blá blá…)

 

Agora que o mundo vai acabar outra vez – epá que chatice, estava a pensar ir ao cinema na segunda – parece-me um momento excelente para rever uma entrevista que fiz há uns anos com David Morrison, cientista sénior do SSERVI (System Exploration Research Virtual Institute) da NASA. Falámos das muitas fantasias incoerentes e delirantes que participavam no concurso ao fim do mundo. E refutámo-las todas.

Espero que gostem. Eu não podia ter gostado mais.

 

David Morrison
David Morrison

 

São várias as pseudoteorias que intentam justificar o final do mundo em 2012. Vão desde o alinhamento dos planetas, ao calendário da civilização Maia, à inversão dos polos da Terra, entre outras. Porém, será que algum desses tópicos guarda alguma verdade em si? Terão fundamentos científicos que suportem o possível fim da vida neste planeta?

Fui falar com David Morrison, cientista sénior do Centro de Investigação Ames e do Instituto de Astrobiologia da NASA e Diretor Interino do Instituto de Ciência Lunar da NASA, cujas explicações sobre estes alegados fenómenos não deixam margem para dúvida alguma.

 

Os desastres, agora antecipados para o ano de 2012, que poriam fim ao planeta Terra são muitos e de diversas naturezas, como sismos violentos, tsunamis colossais, atividade vulcânica intensa, enormes secas e inundações, ciclones devastadores, pandemia de doenças, conflitos armados e um declínio económico. Porém o que poderia desencadear todas estas catástrofes e como terá nascido esta ideia, quando o fim do mundo é já uma temática tão recorrente e os fenómenos assinalados são naturais e comuns na Terra, bem como comuns a todos os tempos? O cientista David Morrison explica que a previsão de que o mundo acabaria em 2012 começou com boatos de que o Planeta Nibiru, hipoteticamente descoberto pelos Sumérios, se dirigia à Terra. Zecharia Sitchin, que escreve ficção sobre a antiga civilização Suméria, alegou que tinha encontrado e traduzido documentos sumérios que identificavam o Planeta Nibiru a orbitar o Sol a cada 3600 anos.

Estas fábulas da Suméria incluem histórias de “astronautas antigos” que visitavam a Terra, originários de uma civilização chamada Anunnaki. Depois, Nancy Lieder, que se autoconsidera psíquica e argumenta estar a conduzir extraterrestres, escreveu no seu website Zetatalk que os habitantes de um planeta fictício em volta da estrela Zeta Reticuli avisaram-na de que a Terra estaria em perigo devido ao Planeta Nibiru ou X. Imagina-se que este planeta poderia colidir com a Terra ou que a sua passagem pela órbita terrestre poderia causar uma paragem no movimento rotativo do nosso planeta, levando a catástrofes tremendas.

 

Nibiru

 

“Inicialmente, o fim do mundo havia sido previsto para maio de 2003, como nada aconteceu a data do juízo final foi adiada para dezembro de 2012”, disse David Morrison. Mais tarde, estas duas fábulas foram associadas a um solstício de inverno apontado pelo Calendário Maia para 2012. Contudo, o cientista frisa que o planeta ameaçador que desencadeou todas essas fábulas simplesmente não existe. David Morrison acrescenta mesmo “Pedir-me-iam provas de que o Pai Natal não existe?”, sublinhando que se de facto existisse, milhões de pessoas já o estariam e ver, além de que já teria perturbado as órbitas dos planetas internos. “O facto de que a Lua existe prova que o Nibiru não existe”, explicou.

Relativamente à civilização Suméria, há quem defenda que era bastante exata e que tinha já conhecimento de planetas como Úrano, Neptuno e Nibiru, num esforço de provar que as suas previsões poderiam ter alguma veracidade. David Morrison afirma que esta civilização não tinha conhecimento desses planetas nem, ainda, de que os planetas giravam em torno do Sol, ideia que foi primeiramente esboçada na Grécia Antiga dois milénios depois do fim da Suméria. Nibiru é um nome na astrologia da Babilónia por vezes associado com o deus Marduk. Os letrados que estudam e traduzem registos escritos da antiga Mesopotâmia contradizem os boatos relacionados com  Nibiru ser um planeta, o qual era já conhecido dos Sumérios.

“Apesar de ter sido uma civilização importante para o desenvolvimento da agricultura, gestão da água, vida urbana e especialmente para a escrita, argumentos apontando que teriam uma astronomia sofisticada ou que teriam um planeta ou deus chamado Nibiru estão errados”, explicou o cientista. Quanto à civilização Maia, considerada por alguns como bastante apurada e desenvolvida para a época em questão, David Morrison afirma categoricamente que “os Maias não fizeram previsão alguma sobre o fim do mundo, ou mesmo eventos catastróficos pouco comuns para 2012” e deixa claro que o que acontece nessa data é apenas o fim de um intervalo de tempo -Baktun- de cerca de 394 anos, da mesma forma que os nossos calendários acabam em 31 de dezembro. O cientista da NASA salienta que os “calendários existem para registar a passagem do tempo, não para prever o futuro”.

Discute-se bastante, também, o alinhamento dos planetas. Teoriza-se que os planetas alinhar-se-iam em 2012, alegando que o magnetismo dos planetas poderia alterar o movimento rotativo da Terra, ou causar uma inversão dos polos, catástrofes tremendas, ou ainda fazer com os planetas saíssem de órbita, induzindo à destruição completa da Terra, bem como do próprio Sistema Solar, entre outras especulações deste género. O cientista esclarece que todos os anos, em dezembro, o Sol está na direção do centro da galáxia, visto da Terra e, além disso, nenhum planeta tem magnetismo capaz de ser detetado noutro. “Não há nenhum alinhamento de planetas em 2012, mas mesmo que houvesse só teria interesse para os astrólogos, os alinhamentos não têm interesse para os cientistas”, argumentou David Morrison.

 

alinhamento

 

 

A inversão da polaridade magnética e uma hipotética alteração no movimento rotativo da Terra, aliados ou não ao referido alinhamento, são também apontados como possíveis fenómenos que poderiam desencadear catástrofes passíveis de pôr fim à vida na Terra. Quanto à rotação, David Morrison explica que é impossível, “nunca aconteceu e nunca vai acontecer”. No que diz respeito à polaridade magnética da Terra, esta muda irregularmente, tendo lugar a cada 4 00,000 anos, em média, uma reversão magnética. Tanto quanto os cientistas sabem, esta reversão magnética não representa perigo algum para a vida neste planeta. Como disse, “não há nenhuma razão para esperar uma reversão da polaridade magnética brevemente, ou para antecipar maus efeitos na vida na Terra quando eventualmente acontecer”.

Nesta sequência de ideias, surge o medo de uma tempestade solar, aquando do máximo do ciclo solar que acontece em cada onze anos, com explosões solares de tal forma violentas que poderiam representara extinção da vida neste planeta. David Morrison esclarece que estas explosões sempre existiram e nunca prejudicaram o planeta ou a vida no mesmo. Além disso, o próximo máximo solar está previsto para a primavera de 2013 e antecipa-se que seja bastante mais fraco do que o habitual.

Da mesma forma, há quem se preocupe com o chamado Dark Rift, com o qual a Terra se poderia alinhar em 2012, levando a que pudesse ser engolida por ele ou fomentando algum desastre semelhante aos anteriores. Segundo o cientista da NASA, Dark Rift é um nome popular para as nuvens de pó espalhadas no braço interior da Via Láctea que bloqueiam a vista para o centro da galáxia. David Morrison comenta que “o medo do ‘alinhamento galáctico’ é bastante louco. Aparentemente, os vigaristas que estão a tentar assustar as pessoas decidiram utilizar estas frases sem sentido como ‘alinhamentos’e ‘dark rift’ precisamente porque o público não percebe”.

 

nostradamus
Nostradamus

 

 

Para além dos Maias, o nome de Nostradamus é mencionado também sempre que se fala de previsões deste tipo, alegando que teria sido ele a antecipar estes acontecimentos, numa tentativa de recorrer à sua autoridade para os validar. O cientista ressalva que “Nostradamus nunca previu nada corretamente” e que nos devemos cingir à ciência, e não à magia. Na opinião de David Morrison, o dia do juízo final previsto para 2012 é um “embuste e uma partida cruel feita a pessoas ingénuas que acreditam nestas mentiras”.

Desmentidos esses fenómenos imaginários de forma lógica e clara, ainda deveremos estar preocupados? Estará a Terra sob ameaça? David Morrison garante com conhecimento de causa que não, que “não há ameaça nenhuma”.

 

 

Datas em que anunciaram que o mundo iria acabar. Pois ia.

365 AC: Um homem pelo nome de Hilário de Poitiers anunciou que o mundo iria acabar no final desse ano. Não aconteceu.

JAN-1000-1: Muitos cristãos na Europa haviam previsto o fim do mundo nesta data. À medida que a data se aproximava, os exércitos cristãos abriam guerra contra alguns dos países pagãos da Europa do Norte. A motivação era convertê-los ao cristianismo, pela força se necessário, antes de Cristo retornar no ano 1000. Entretanto, alguns cristãos haviam dado os seus bens à Igreja, em antecipação do fim. Felizmente, o nível de educação era tão baixo que muitos cidadãos não tinham consciência do ano. A data foi mudada para 2000.

1179: João de Toledo previu o fim do mundo durante o ano de 1186. Esta estimativa foi baseada no alinhamento dos muitos planetas.

1736: O teólogo e matemático britânico William Whitson previu um dilúvio semelhante ao de Noé para 13 de outubro desse ano.

Setembro de 1186: O astrólogo João de Toledo, em 1179, anunciou o fim do mundo quando todos os planetas estivessem em conjunção com Balança. Se incluirmos o Sol, isso aconteceu em 23 de setembro de 1186 às 16:15 GMT, ou a 3 de outubro do novo calendário. O arcebispo de Cantuária pediu um dia de oração, o alinhamento ocorreu, o fim do mundo não.

1919: O meteorologista Alberto Porta previu que a conjunção de 6 planetas iria gerar uma corrente magnética que faria com que o sol explodisse e engolisse a Terra a 17 de dezembro.

Julho de 1999: Nostradamus, em X-72 afirmou:“L’na mil neuf cens nonante sept móis Du cielviedra grand Roy deffaieur Resssciter le grand Royd’Angolmois Avaant aprés Mars regner par bomheur”. O ano mil novecentos e noventa e nove, mês sete, do céu virá um grande Rei assustador para ressuscitar o grande Rei dos Mongóis. Antes e depois de Marte reinar por boa hora.

18 de agosto de 1999: Criswell (1907-1982). Um Arco Íris Negro (uma perturbação magnética na atmosfera causada por atrações gravitacionais no universo) retirará oxigénio da Terra. Esta deixará a sua órbita e encaminhar-se-á para o Sol.

In revista Saber Açores junho 2010

 

E que sortudos somos nós agora, somos os felizes contemplados com a dourada oportunidade de juntar mais datas! Querem ver?

24 de setembro: Esteve quase quase a acontecer, ui foi mesmo à queima roupa. Passou por nós um asteroide a 21.5 LD (distâncias lunares) que, segundo um artista do DN ciência, “não nos ia matar a todos“. Pois não, só o ia atingir a ele na Área de Wernicke (zona cerebral) a ver se ele começa a entender as coisas como um homem grande.

28 de setembro 2015: Lua de sangue. Coisa terrível esta (vamos falar sobre ela mais tarde).

 

 

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