O golpe

 

Publicado em Açoriano Oriental

 

A sociedade andava a comer-se a si mesma.

Algum género de maçonaria bizarra e canibal, nada secreta e muito menos fraterna ou filantrópica, a não ser que se encarasse os empreendimentos dessa sociedade como masturbação – pois como tudo o que fazia era para seu próprio prazer.

A liberdade de expressão e mesmo de movimentos não expressamente autorizados morria com o portador das referidas libertinagens. Quem sonhasse durante uma curta e temente noite de sono em soprar qualquer opinião contrária, ou sequer sentir ou revelar, ainda que involuntariamente, uma reação adversa às entidades de controlo e poder, desapareceria eficazmente. Todas as suas vontades teriam de ser seguidas com rigor e medo. Fosse o que fosse que saísse das linhas – distorcidas e retorcidas –, não voltaria a entrar. E diferenças não eram bem-vindas. As forças policiais de outrora estavam agora confinadas ao seu uso exclusivo, exigente e requintado. “Fulano fez o quê? Façam-no desaparecer. Sicrano disse o quê? Eliminem-no”. Por dá cá aquela palha, matava-se com pontualidade e muita leveza de espírito sobrecarregada pela iniquidade da tirania. As Posições de Domínio, Regime e Determinações não ligavam patavina à ralé que era encontrada morta. Poderia uma mulher chamar a polícia porque o vizinho ou o ladrão tinham matado o seu marido? Os grupos policiais eram inteiramente preenchidos por membros da PDRD, portanto de nada lhe valeria. Apenas, quiçá, matarem-na também se falasse em demasia, se afrontasse e tomasse em desconsideração o poder. Não havia grande pressa na remoção do corpo, pois os senhores não frequentavam os meios inferiores da plebe. No entanto era o dever de um bom cidadão mandar limpar a porcaria com prontidão.

 

mordaca_1.jpg.554x318_q85_crop

 

A maioria das pessoas mantinha-se ordeira, cordeira, calada. Todavia, de vez em quando, qualquer ovelha tresmalhada, que não conseguia tirar da memória ou da consciência os tempos de liberdade, despontava louca e confrontava os membros da camada política e melosa – qual cobertura glacê.

Mas não havia a quem recorrer. A predominância deles, em número e em força, era grotesca. Além disso, mantinham com profissionalismo em ínfimas quantidades os cidadãos menores. Eleições? Claro que sim. Que pessoas bem formadas não compreenderiam a importância do voto e da democracia? E todos podiam votar! No entanto só havia um quadrado onde assinalar a cruzinha.

Até ao dia em que o germe da revolta e dignidade seja mais forte, levando a atraiçoar pelas costas ou não um filho interesseiro da cobertura glacê.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *