O que o Curiosity (não) descobriu em Marte

 

Neste artigo, vamos sucumbir ao deleite que Curiosity nos concede com as coisas assombrosas, extáticas mesmo, que descobre lá por Marte – de acordo com a interpretação adaptada pelo rico imaginário humano. Claro que me refiro à categoria da fantasia que faz brotar especulações vazias de tráfego ilimitado.

Assim sendo, o que terá descoberto a nossa maquineta exploradora desta vez?

 

Eu sugeria, se consentirem, que desliguem os telemóveis, TVs e outros aparelhos do género. Sentem-se confortavelmente, respirem fundo e prestem atenção. Segundo o que descobri num vídeo no Youtube (porque no Youtube não encontramos apenas tudo o que existe, mas também o que não existe), o todo-o-terreno que pusemos lá a escrutinar o planeta vizinho deparou-se com…

Rufos!

Um artefacto extraordinário!, como declara a voz que soa a automática. Segundo essa narração automatizada, o Curiosity descobriu o que se afigura como uma estátua antiga. Desde já, gostaria de salientar logo de início o adjetivo empregado (extraordinário), o qual se aventura a transgredir o limite entre a apresentação de um facto, neste caso de uma curiosidade, para penetrar ousadamente no campo do poder da sugestão, à qual muitas pessoas são vulneráveis.

Como nos conduz a tal voz mecânica, Quando olhamos de perto (sim, porque é mesmo possível «olharmos de perto» para uma coisa que está num planeta a cerca de 80 milhões de km daqui), podemos ver claramente a forma de uma possível cabeça. Notem novamente: claramente. Através de uma interpretação de pragmática da comunicação, é o mesmo que dizer: É tão óbvio, não vê quem não quer.

Continuemos, há mais passos a seguir. No seguinte, há a ressalva, Apesar de a cor do artefacto (artefacto??) já ter sido desgastada e sofrido modificações, ainda é possível denotar um penteado para o cabelo da estátua. Neste momento surge uma seta a apontar, ie, a dirigir a nossa imaginação para o desfecho que desejam. E continua (com a seta a comandar o caminho): …é possível distinguir uns olhos, nariz, boca e queixo.

Agora começa a ficar assaz interessante…

Diz a voz: Se melhorarmos a imagem, aplicarmos colorização e algumas luzes, podemos ver claramente que este objeto é uma relíquia antiga de algum género.

Bem, por onde é que começo?

Ok, obrigadinha. Se melhorarmos as imagens do presidente da república, aplicarmos colorização e algumas luzes, possivelmente alguma maquilhagem, o homem fica com boa cara! Pronto, talvez não… Todavia a conclusão mantém-se, todos nós conhecemos a processo de transformação a que são submetidas algumas imagens, cujo resultado em nada se parece com o inicial. Com as ferramentas adequadas, o céu é o limite. Neste caso, chega mesmo até Marte.

De igual modo, não consigo evitar suspeitar do enunciado …é uma relíquia antiga de algum género. Mas que precisão histórica. E científica. Contudo admito que é realmente uma relíquia de algum género: do género imaginário.

 

a foto alterada da pedra que se parece com uma cabeça que se parece com apolo
Eis o artefacto (???)

 

Depois de efetuadas todas as correções à imagem, conclui-se que tem semelhanças impressionantes (alega a vozinha, com recorrência à adjetivação sugestiva outra vez) com o Deus Grego Apolo. E segue-se então uma ladainha argumentativa dizendo que Apolo era uma das divindades mais importantes, sendo o Deus do conhecimento e profecia e tal. Na realidade, Apolo, como professa a mitologia, detinha vastos atributos, no entanto foram selecionados para esse discurso os mais adequados para adornar a jeito a habitual e tentadora especulação. Prontamente de seguida, é mencionado o facto de a NASA atribuir coincidentemente nomes de divindades às suas missões e naves – como é o caso de Apolo, o qual foi anteriormente descrito como Deus dos vaticínios. Como para bom entendedor meia palavra basta, já todos nós entendemos onde querem chegar com essa apresentação de alíneas (pseudo)evidenciais justapostas.

Sim, não deve ter nadinha a ver com o facto de os primeiros planetas terem sido descobertos pelos Gregos, que naturalmente lhes atribuíram as designações do que para eles era mais importante: os seus deuses. Temos seguido essa linha de terminologia até hoje, não há rigorosamente nada de místico nisso.

Para finalizar em grande, é deixada em flutuação retórica no intelecto do espetator a seguinte questão: Será possível que a verdade acerca da nossa história e origem tenha lugar para lá do vazio do espaço, possivelmente no planeta vermelho?

A resposta até pode ser sim. Mas não porque encontraram uma pedra que aparenta ser uma cabeça que depois de muito trabalho de Photoshop se assemelha ao deus Apolo. Não. Vamos pensar, se a origem da vida tem como berço outra localização no vasto espaço lá fora, seja em Marte, em Caronte ou noutra galáxia, não foi transportada para cá já sob esta forma, dimensão, e estádio evolutivo atual. Ou foi?

Vejamos como se iniciou e tem progredido a vida na Terra.

Entre 4500 a 2500 milhões de anos atrás surgiram os primeiros seres unicelulares, no período Arcaico. Entre 2500 e 570 milhões de anos atrás, no período Proterozoico, figuram os primeiros animais pluricelulares. Seguiram-se os períodos Câmbrico, Ordovício, Silúrico, Devónico, Carbonífero, Pérmico, Triásico, Jurássico, Cretácico, o Terciário e, por fim, o Quarternário ao qual pertence o aparecimento dos seres humanos, há 1,8 milhões de anos atrás. A civilização Grega germinou há apenas alguns milénios.

Façam as contas. Então segundo a (pouca) lógica demonstrada no vídeo desenvolveu-se vida naquele planeta durante todos esses milhões de anos até ao aparecimento coincidente de uma Grécia e de uma civilização Grega iguais às terrestres, contudo não encontram nem apontam marca alguma de nenhuma, inexoravelmente nenhuma, dessas eras? Nenhum rasto ou sinal dessas fases da evolução? Nem das primeiras invenções pré-históricas, por exemplo?, um biface, uma roda? Nem têm sequer nenhum fundamento remotamente científico? Nada? A única evidência que citam e da qual nasce um argumento mal validado racionalmente é uma imagem largamente alterada de uma pedra parecida à cabeça de Apolo, é isso?

E mesmo que tivesse havido humanidade em Marte, por que motivo se desenvolveria do mesmo modo que nós, criando e acreditando nos mesmos deuses que nós, vestindo como vestimos, esculpindo como nós esculpimos?

Creio que se descobríssemos a prova pelo menos de uma célula, aí sim poderíamos confirmar a possibilidade de a origem da nossa vida advir de Marte. Até se encontrássemos vestígios de fases evolutivas iniciais, ou mesmo de períodos anteriores à era em que surgem os primeiros mamíferos (Terciário), talvez isso pudesse significar que o génesis da vida terrestre é marciano, mas que por qualquer ou quaisquer razões se extinguira nesse planeta. Até encontrar rastos da existência de dinossauros seria melhor sinal. Mas não, consoante esse ponto de vista, imagino que a humanidade em Marte se tenha iniciado no período correspondente à civilização Grega, que certamente caiu do céu já sob aquela forma, já a escrever tragédias e sem antecedentes de evolução. E provavelmente tão depressa lá apareceu, como desapareceu. Pois, já me esquecia, eles foram trazidos para cá. Decerto pelos tais Egípcios da pirâmide de Ceres.

Eu estou consciente de que foi na Grécia Antiga que nasceu a forma do nosso pensamento ocidental, todavia em termos biológicos e evolutivos, muita água correu antes disso.

 

aristarco_thumb

 

Seguramente, se mostrarmos essa imagem a uma pessoa de outro contexto cultural, a sua imaginação conduzi-la-á, com a referida setinha sempre a assinalar com prontidão, para outra representação simbólica, que não este deus tipicamente ocidental.

Não estou a questionar de modo algum a possibilidade de ter havido vida em Marte, mas contesto com veemência a condução manipuladora de ideias nesse vídeo, refuto toda a argumentação que aí exibida; num canal que alega igualmente que Leonardo da Vinci pintou inadvertidamente um extraterrestre no quadro da Monalisa, ser esse que podemos identificar depois de dobrar a imagem, fazer zoom aqui e ali, mudar as cores, acrescentar sombras e luzes, etc etc etc… Estou certa de que esses senhores até ETs debaixo da minha cama descobrem.

 

Grrr!
Grrr!

 

Isto não é mais do que – mais uma vez – um cenário de pareidolia/apofenia. Fenómenos do cérebro humano que aludem à nossa intrínseca tendência de fazer corresponder formas, padrões, ou dados aleatórios a objetos/imagens da nossa realidade ou imaginário. Ou seja, ver um coração na forma da espuma do café, ou identificar uma santidade no tronco de uma árvore, ou encontrar um comboio nas formas das nuvens. Não se trata nem de um coração, nem de uma santidade, nem de um comboio, apenas os contornos desses conceitos que o nosso cérebro identificou.

Que sejamos capazes de nos apercebermos de aspetos padronizados é formidável, pois tem-nos garantido sobrevivência, aprendizagem e evolução até hoje. Mau é quando esta propensão nos obstrói o percurso para a verdadeira compreensão do que nos rodeia, pois nos detém num mundo de imaginar barcos, leões, baleias e maçãs nas formas das nuvens. E entidades mitológicas nas rochas.

O que é que acham, concordam comigo?

10 comentários Adicione o seu

  1. Marco diz:

    Boa! Gostei bastante desta tua reflexão. Mas então achas que nunca houve vida em Marte, ou pode ter havido de forma diferente? Que não deixe vestígios tão óbvios como os nossos antepassados deixaram… Sei lá. Não sei até que ponto a “vida” para lá deste planeta, que é o único que posso dizer que realmente conheço,possa ser diferente. Funcione de forma diferente…

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Obrigada, Marco. 🙂
      Acho que houve lá vida sim, mas tenho algumas reservas quanto a ser totalmente igual à humana, pois não me parece que a evolução em planetas diferentes conduza às mesmas crenças. Ou seja, se existirem pessoas como nós noutra parte da galáxia, por exemplo, será que cozinham como nós? Vestem-se como nós? Têm os mesmos deuses que nós? Se de país para país somos diferentes aqui na Terra, então de planeta para planeta talvez mais ainda.
      Não concordo é com a condução de opiniões que fazem no vídeo.

    2. Marco diz:

      Claro! É isto que eu estava a questionar, pois concordo contigo neste aspeto. Daí estar a dizer que decerto noutro planeta será muito mais diferente daquilo que nós conhecemos.

      Obrigado! 🙂

    3. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      De nada, Marco. 🙂
      Além disso, o canal de onde sai essa ideia, faz brotar outras igualmente duvidosas, a meu ver.

  2. Alberto diz:

    Se toda a vida morrer de repente da face da Terra, quanto tempo duravam as evidências diretas da existência de vida na superfície do planeta?
    Que marcas indiretas ficariam para a posteridade?

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Boas perguntas, Alberto. Obrigada.
      Que marcas indiretas ficariam para a posteridade e durante quanto tempo? Na verdade não sei, talvez a cabeça de uma estátua antiga do Cristiano Ronaldo.
      O que está em causa, para mim, não são essas evidências no geral, mas sim a condução manipuladora (na minha opinião) apresentada no vídeo. O discurso, a argumentação, a adjetivação, reforçadores de ideias (indeed: de facto), o zoom, a modificação da imagem, tudo isso.
      Se fizerem o mesmo à cabeça do Ronaldo nessa altura, mesmo sendo verdade, vai parecer forçado.
      De qualquer modo, também há a possibilidade de os visitantes do futuro virem à terra e encontrarem uma pedra que lhes poderá parecer com uma representação da sua realidade ou das suas ideologias, quando na verdade é só uma pedra.

  3. Luis diz:

    E o ALH84001?
    Creio que já houve indícios de vida em Marte, uns maiores que outros, dos quais não foram dados os respectivos créditos. Teimam em querer encontrar um indicio directo, enquanto já existem mais de 1000 indirectos, que quando analisados sozinhos podem haver muitas explicações para além da existência de seres vivos, mas quando se olha para todos eles em conjunto a vida é a única explicação.
    Não me refiro a pirâmides ou caras na superfície, mas a vida na sua forma pelo menos mais básica.

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      O ALH84001 é um dos casos, ou possivelmente uma prova, que na minha opinião está na zona de racionalidade e com probabilidade significativa de ter havido vida em Marte, de onde pode vir a origem da nossa vida também.
      Não acho é que uma pedra, que se parece com uma cabeça, que depois de algumas modificações se parece com Apolo, que por acaso era o Deus das profecias, etc etc, possa provar ou significar alguma coisa. E no entanto, indícios de outras eras de evolução, de formas mais básicas de vida – como tu dizes bem, Luís -, não há absolutamente nada… Segundo os pontos exibidos no vídeo.
      O que estou a pôr em causa não é a possibilidade de a vida vir de Marte, mas sim o argumento forjado/manipulado nesse vídeo para chegar a essa conclusão.
      Muito obrigada pelo teu comentário, Luís. 🙂

  4. Manuel diz:

    Eu cá sou da mesma opinião.
    Bom texto.

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Já somos 2, Manuel!
      Obrigada, fico feliz que tenha gostado.

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