Ó senhor Presidente, isso não se faz, mau mau

Publicado originalmente no Açoriano Oriental de 2/2/16

 

Então o nosso Marcelinho estacionou a sua luzidia viatura erradamente esta semana? Seria mesmo oportuno para o Fernando Pessa comentar: E esta, hein?

E quando escrevo erradamente não pretendo com isso ilustrar um estacionamento que pisa levemente a linha delimitadora lateral ou frontal, por exemplo. Não, nada disso. O nosso Marcelinho, instalado pelos portugueses na mais alta cadeira do país, ao consentir amavelmente que pudéssemos seguir televisivamente o seu dia, enveredou pela escolha sagaz de deixar o seu carrito num lugar para pessoas com necessidades especiais – mais comummente e sem nenhuma conotação negativa: pessoas com deficiências.

Diz o Marcelinho: “Foi só por um momento”. Claro que foi. Mas foi somente “um momento” agora ou já terão havido outros desses fugazes momentos, hã? Além disso, como acrescentou, não só foi uma paragem célere, ficou um polícia a tomar conta da chave, logo está tudo bem. Bem, honestamente isso não me faz sentir melhor – pior, na verdade. Anda o pessoal a financiar as forças policiais para relegarem a lei a troco de “um momento” de babysitting à chave do senhor Marcelo.

Tenhamos ou não votado nele, gostemos ou não dele, creio que será consensual o quão desagradados ficámos com esse procedimento, que ocorreu mesmo na sensível pós-consciencialização dos resultados, agora aqueles 52% já não têm o mesmo sabor…

Na verdade,“o momento” em que o seu carro nesse lugar perdurou poderá ter sido a altura em que alguém com determinadas dificuldades ficou privado do seu direito, possivelmente esperando ao postigo que o recém pontífice político da nação prosseguisse com o seu diário televisivo. Só a sonoridade dos factos justapostos nessa frase é absurda, quanto mais o seu teor de razão.

E se alguém estiver a pensar contra-responder “errar é humano”, eu alvitro desde já que aquilo não é um erro. É uma negligência. Consciente. É injusto e facilmente evitável. Um erro é comprar um presente de Natal errado por não conhecermos bem o gosto da pessoa e pensar que talvez fosse apreciado.

Infelizmente, esta é uma atitude que prolifera qual vírus furibundo. A conduta “top” (porque eu sei o quanto esta palavrinha – top – é agora idolatrada, sabe-se lá porquê…) é deixar o carro no espaço mais cómodo possível, seja nos lugares para deficientes, grávidas, idosos; ou mesmo sobre os passeios – impedindo que essas mesmas pessoas não consigam circular em segurança. Mas não interessa, o dono do carrito é que não pode andar muito. Claro, claro.

Estabelece-se aqui uma certa hierarquia, que nem vou adjetivar, querem ver? Em primeiro lugar está o proprietário do veículo que ou deseja o automóvel bem encostadinho à sua porta, quais namoradinhos, ou bem perto de um estabelecimento comercial – e só depois se seguem as pessoas a quem se destinam os passeios ou diferentes espaços de estacionamento, os quais estão até demarcados com uma coloração diferente dos demais. Mas quão difícil pode ser acertar?

Sim, é verdade, foi só por um momento, o homem também não permaneceu ali por horas. Contudo foi um momento que o recém-eleito representante da nação desaproveitou para dar um exemplo de cidadania e solidariedade. Não que apenas “esse momento” nos faça olvidar ou mesmo diminuir as suas qualidades humanas e profissionais – não faz -, todavia não ajuda incorrer em esquecimentos do código da estrada quando todos os olhos estão a pairar sobre ele em expetativa.

Volto a repetir, não será por isto que a casa vai abaixo. No entanto, ainda na última semana, referi alguns erros de argumentação praticados pelos concorrentes à suprema cadeira. Com esta atitude, concebe-se oportunidade que também as pessoas recorram a argumentação falaciosa, do género: “Se o senhor Presidente o faz, eu também posso”.

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