O xaile de Ágata Drusa

 

Corri. Sempre. Subjugando-me à maior velocidade de que fui capaz. Tropecei, galhos invasivos e indecorosos intentavam barrar-me a trajetória, arranhando-me a face, os braços, o colo ao fazê-lo. Caí. Afundava-me em depressões enlameadas e rastejava alienadamente até delas me libertar. O sangue fluía pelos meus arranhões e feridas com uma assiduidade irreprimível. Decerto que esse seu dedicado fluir demarcaria a minha passagem por ali, acusando a minha fuga e revelando o meu destino.

E eu não quis saber.

Não podia. Não quis saber de nenhuma das rudes oposições daquele bosque para me derrubar e apreender.  Presa vivera eu toda a vida. Cair, sangrar, ser arranhada, sentir a pele dilacerada a arder, os ossos frágeis a ceder, a respiração a restringir-se… só fazia com que me sentisse mais livre, mais viva e com mais motivos para continuar a correr, para continuar a fugir. O dia já não era novo. O avançar para a idade da noite já se revelava no céu alaranjado e taciturno. À minha frente, a paisagem pela qual e contra a qual eu corria já não era fácil de se diferenciar. Tive de correr mais. Mais depressa. Para onde? Para chegar aonde? Não sabia, mas tinha de o fazer. E corri mais, com o sangue no meu rosto a diluir-se nas lágrimas. Num ímpeto final, avancei mais velozmente, progresso esse que me depôs segura numa clareira. Caí de joelhos na terra macia, sentindo finalmente algum ar a circular no meu peito. A lua boiava no céu descoberto pelo espaço da clareira. O meu vestido de renda nívea era agora castanho avermelhado, cores patenteadas pelo meu desenfreado fugir das últimas horas. As minhas sandálias estavam amarradas e penduradas nas pernas, haviam-se afastado dos pés, agora rasgados, antes de metade da minha partida. Ocorreu-me que poderia agora derramar num choro toda a mágoa, decursiva da dor que residira como um parasita em mim desde sempre. Mas sentia-me drenada pela amargura, então deixei-a simplesmente partir como uma alma que se dissolve no silêncio, sem se ver, perdendo toda a importância que teve, do que foi, do que sentiu, esquecendo as memórias, tornando-se numa estória, cujos contornos se irão desfazer na própria memória dos outros.

Assim partiu a minha dor – sem alarido, sem relevância.

Notoriamente mais leve, compus-me. Erradiquei galhos e urtigas enfiados na minha pele, limpei-a com um pouco de tecido que rompi do meu vestido, com os dedos desembaracei o mais possível  o meu cabelo acobreado que se alongava até à minha cintura num emaranhado sujo e sangrento, recoloquei as sandálias de lona nos pés. Deitei-me. Distendida no chão, massajei e abracei a terra a meu lado como um amante que não nos deixa sós nas noites, nos dias, jamais. Nunca havia retirado tanto prazer de nenhuma outra fonte como daquela húmida e voluptuosa terra. Mas também nunca havia tido nada que fosse verdadeiramente meu. A minha roupa só era agora meu pertence porque eu escapara com ela sobre mim. Roubara-a. Diriam eles. Porque esperariam com certeza, se preadivinhassem alguma vez a minha ida, que me despisse antes de o fazer. Mas a terra! Era minha, sempre fora minha, pertencia-me e eu a ela, como se ao tocá-la me incorporasse nela e ela em mim. Quão insana estaria eu? Devaneios de uma mente subordinada a maus-tratos constantes pela arrogância e superioridade dos fúteis, superficiais e ignorantes. Acariciei-a mais. A sua macieza acalmava a minha pele fustigada. Fiquei ali deitada a senti-la debaixo de mim, encostada a mim, premente ao meu corpo, acarinhando-a com o fraco ânimo da minha mão.

 

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Franzi o sobrolho escoriado. Um pouco abaixo dos grãos da superfície, tateei uma rede… fina mas consistente… Não pretendi desrespeitar e removi a mão. Todavia, quando a retirei, alguns fragmentos de terra a mim vieram unidos. Pedaços esplendentes de aspeto quebrado cintilaram sob a luz platinada da lua. Incitavam-me a descobri-los. Pousei devagar a minha mão sobre a terra, senti-a amena, convidando-me a remexer-lhe. Fi-lo. Aos poucos, expunha-se diante do meu olhar deserto um tecido laboriosamente entretecido de centelhas. Comecei a erguê-lo devagar, esperando algum protesto da natureza para não o fazer. O seu único sinal era o crescente brilhar daquele tecido que eu desencovara. Levantei-o com cuidado nas minhas mãos algo titubeantes. Era um xaile. Um xaile… de uma textura singular… assemelhado a… Sim, às pedras falsas que as senhoras imitavam nas jóias umas das outras.

Ágata Drusa.

Icei-o à altura do meu olhar, que refletia brilhante mas incredulamente as peças lascadas do xaile. Um frio inesperado e intempestivo encintou-me, propondo-me assim que me cobrisse com o Xaile de Ágata Drusa. Enrolei-o em mim. Sob a lua, sobre a minha pele edemaciada, o xaile fulgurou majestaticamente como se cantasse. A lua caiu tragicamente e uns raios críseos tomavam agora o seu lugar sem que eu tivesse percebido que o tempo havia passado tão rapidamente. Ou será que não tinha? Com a aurora, o meu cabelo enegrecido renascia das pontas até às raízes, recuperando a saúde e o esplendor que nunca tivera. O xaile ainda relampejava, qual movimento ondulante e hipnótico de uma medusa. A minha pele… regenerava-se diante do meu cético olhar. Não só se renovava, como conquistava tons e flamâncias que eu nunca tivera, advindos de um interior que não era meu. Ou era? As minhas unhas, o meu corpo, os meus membros, permanecendo tal como eram antes, metamorfosearam-se num algo indescritível a que todos aspiram, que tentam replicar, não sabendo sequer definir nem caracterizar. Eu era mais. Era melhor. Ressurreta de uma origem aprimorada, etérea. Eu. Aquela que nunca detivera nada nem nada era, por que nunca concordara com o molde de cinismo elitista, aparências e aparições vazias, inteligências calvas e sofisticação barata. Não. Jamais.

O meu vestido desapareceu. As minhas simples sandálias também. Contudo não me encontrava desnuda – estava revestida com o Xaile de Ágata Drusa. O xaile era a minha pele.

Descalça, porém com uma resistência inconcebível, levantei-me. O sol também, escoltando-me. E assumi o meu regresso para precisamente de onde viera. Se estariam à minha procura, ou se celebrariam alegremente a minha morte, ou se me devorariam socialmente ao contemplar a minha pele de pedra preciosa, ou se nem se recordariam de mim, não me interessou. Muito mais forte que antes, muito mais forte que qualquer um deles, decidi voltar. Caminhei calmamente. Agora os filhos do mato não se atreveriam a interferir na minha rota. Ou talvez a minha supremacia não permitisse tampouco que os sentisse, ou que me tateassem sequer. Só o xaile me tocava. O findar do bosque estava iminente, conseguia ver o espaço descoberto de árvores e de plantas invasoras um pouco à frente. Sorri-me, o xaile e o sol também me sorriram em conivência. O sol estava já no topo do céu. E eu no topo daquela terra. Saí finalmente da boscagem, com a sensação inerente que me retirava do interior quente de uma mãe. Renasci.

Andavam efetivamente no meu encalço, pude evidenciar. Voltei a sorrir. Todos se detiveram atonitamente, vítreos e expectantes.

Continuei a caminhar na direção deles. Eles…, pensaria eu antes com algum desamor inseparável do pronome. Agora era indiferente porque eu havia sido elevada a outro patamar. A outro altar. Quando me achegava, eles retrocediam um passo e distanciavam o olhar. O sol, no seu trono, estimulava o brilho do meu xaile, o brilho que era agora meu também. Claridade que os enceguecia. As joias das mulheres apagaram-se. Elas esconderam-nas sob as mãos, com vergonha enrubescida. E retrocederam também um passo. Alguns passos. Os suficientes para conceder liberdade à minha hegemonia e luz. Eles compreenderam de imediato o pouco que eram. A insignificante validade do que eram, do que diziam, de como viviam. Tornei-me numa revelação andante, num apocalipse iluminante. Eu estava vestida de Ágata Drusa, cuja entidade e propriedades eram, acreditava-se, a base daquela nossa civilização, a religião do seu pretenso e sardónico cultismo. Por esse motivo, apenas a pessoas de linhagem e vivências concordantemente estipuladas eram concedidas essa pedra preciosa – a ágata drusa. Eu nunca tivera nenhuma. Nunca tivera nada. Razão pela qual podia ser ridicularizada como princípio de um livre arbítrio alheio.

E agora eu sou Ágata Drusa.

À minha passagem, parece que se tornam vãos, despojados. Sorrio. Não por eles – desses não quero saber. Sorrio por mim. Apenas por mim. Nem sei na verdade quem são, nunca sabemos. À minha passagem, a exiguidade da sua vida ainda mais se reduz, canibalizando-se. No entanto, desta vez eles compreendem-no. A sua existência tem agora o valor do tal espírito que se eteriza sem deixar rasto. Nem saudade. E eu avanço de rosto erguido, pelos locais por onde não poderia passar anteriormente sem ser moralmente apedrejada. A escabrosa e insurreta verdade. E começo a recordar-me da minha melhor memória recalcada… Ele. De quem me privaram assim que o meu olhar escuro sobre ele se verteu. Agora corro, tão rápido e tão agilmente como se voasse. E chego ao vale que me era proibido, semente de escárnio para eles. Alcancei a pedreira. Sabia que o que me haviam roubado ali estava expatriado. Como de igual modo sabia o quão errado todos os outros eram. Detive-me e inspirei à entrada. O meu xaile iluminou a sombria gruta da pedreira. Não sabia como chamá-lo, só o havia visto uma vez, mas sentira-o tão meu quanto a terra do chão que é minha, que sou eu. Ele veio ao encontro do meu brilho. Olhou para mim. Agora sorri abertamente. Ele retribui-me com um sorriso recetivo. O brilho da pedra no colar sobre o seu peito moreno retribuía as centelhas do meu xaile… Ele era tão Ágata Drusa quanto eu, percebi então, entendendo também porque se encontrava ali só e exilado. O alvo da cobiça quer-se longe. Com os seus braços fortes, desviou os troncos que cerravam a entrada. Era tão lindo como me remembrava. Alto, moreno, forte. Sorriso quente e honesto. Olhar que convida ao abrigo. Postura reta que apela à dignidade e felicidade. Brilhava. De dentro. Como eu agora. Abraçou-me. No mutismo desse abraço, envolvemo-nos um no outro, qual terra quente, macia, convidativa.

Não voltámos à cidade, apesar de eles agora não representarem ameaça alguma para nós, mas sim o contrário. No entanto, queríamos lá saber. Ficamos por ali, juntos. Éramos Ágata Drusa e tínhamo-nos um ao outro.

De que mais precisaríamos?

 

2 comentários Adicione o seu

  1. Hugo diz:

    Conto bem escrito e final bem conseguido.
    Gostei da narrativa na primeira pessoa.
    No entanto, não posso deixar de referir que o conto pode ainda ser revisto, encontrei alguns erros 🙂

    Parabéns 🙂

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Onde estão os erros, Hugo?, não estou a vê-los nem de óculos! Como te disse, remembrar não é um erro, mas sim sinónimo de relembrar, rememorar, recordar, lembrar, recapitular, reviver, entre outros com possibilidade de equivalência semântica.
      Mais, onde estão eles?
      Obrigada pelo comentário e tentativa de correção, Hugo. 🙂

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