O conto da bicicleta

Publicado originalmente no Açoriano Oriental de 11/01/16

Estão todos a andar de bicicleta. Eu estou sentado a vê-los, vendo-me a mim através de uma imagem esmaecida sentado a observá-los. Acho que dava tudo para estar no lugar deles…, a alentar a alegria livre daquele pedalar, deslizar, a desfrutar da sensação do vento e de voar em terra – é que naquele momento etário ter uma bicicleta equivale a um nirvana de vida, sem dúvida. O que mais poderia querer um rapaz de dez anos naquele tempo que já foi há tanto tempo? Mais nada, a bicicleta refletia tudo para nós. No entanto eu não tinha nenhuma. Não quereríamos nada do que existe atualmente se nos possibilitassem perscrutar o futuro, desejávamos somente a bicicleta. No entanto eu não tinha nenhuma. Pensando melhor, talvez nem todos nós a quiséssemos tão apaixonadamente quanto eu, pois sendo o único que não a tinha, possivelmente seria o único a experienciar tão vividamente dentro do meu ainda pequeno ser o vazio ensurdecedor que deriva de um ensejo não preenchido. Por ser contra o negativismo teatral, admito sensatamente que embora não tivesse a tal bicicleta, era alvo indiscutível de simpatia e generosidade dos meus amigos, que me deixavam dar uma volta ocasional nas suas luzentes e velozes viaturas. Sim sim, havia um ou outro energúmeno que ao invés de praticar a generosidade infantil, ia pela ostentação e snobismo, contudo por pior que essa atitude seja, a minha felicidade no momento de enfim subir para o velocípede era tão transcendental que arrastaria com exuberância para longe de mim – qual torrente de energia de espírito – qualquer ninharia alheia.

Agora é o meu momento de andar. Consigo ver-me, com a minha camisola às riscas e calções amarelos muito gastos – sem que eu me importasse com isso -, levanto-me com prontidão, qual pupilo ávido e solícito. O meu sorriso!, gostava que o vissem, revisitando-o agora na minha memória que me permite viajar no tempo, convenço-me de que seria o suficiente para contagiar o mais infeliz dos seres. Imaginem só, a epidemia do sorriso do miúdo da bicicleta emprestada… Conseguirão sentir o calor do meu gáudio através das palavras que vos narro? Subo para a bicicleta e perfaço órbitas elegantes no eixo comum da brincadeira. Com os meus pequenos pés descalços, pedalo e pedalo e pedalo e pedalo, porque não sei quando voltarei a poder fazê-lo, porque sei que o meu tempo é parco, por que sei que enquanto não encontrar o limite que me é concedido posso continuar. Já conhecia o intervalo que me era habitualmente atribuído, portanto entregava o meu sonho ao dono adiantadamente. Ele encosta-a a um muro, alguns dos meus amigos ainda desfrutam de uns minutos de repouso até voltarem às viagens, contudo eu era agora recetáculo de tamanha satisfação que não me conseguiria parar-me a mim mesmo – danço, pulo, rio, acolhendo o sorriso extraordinário de que vos falei. Não sei se ainda sorrio assim…

Eu sabia que iria ter uma bicicleta. Não se tratava de acreditar que a iria ter, não – sabia que ia acontecer. Deveria apenas aguardar que os dias, os meses, os anos girassem ciclicamente na sua esfera temporal, e um momento desse rodopiar de tempo traria até mim a minha bicicleta. Minha bicicleta! Até a pronunciação do pronome possessivo sabia a trespasse na minha boca. Ia acontecer, eu sabia. Mas não aconteceu. Nada aconteceu. Não tive a bicicleta. E a agra verdade é que por melhor que seja o sentimento prometedor de acreditar, por vezes parece não conduzir a nada mais senão a facultar alguma mélica esperança presentânea.

Não tive a bicicleta. Ponto final.

Todavia ao longo dos anos aprendi contornar esse desencanto. Outros momentos aconteceram, outras prioridades se sobrepuseram, outras responsabilidades surgiram, outros momentos sobrevieram. Creio que até perdi o interesse na bicicleta. Ou assim inadvertidamente encarei a coisa, pois quando enfim aos 45 anos cheguei a casa no fim de um fatigante dia e encontrei os meus filhos com uma bicicleta a mim endereçada, aquando da altura propícia de eles mesmos terem as suas, todo o recalcamento da fantasia se dissipou, a criança pulou e aquele sorriso regressou. A bicicleta chegou.

 

 

 

 

 

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