Origem do Universo. Ou da imaginação?

 

Nota de extrema relevância: o vocábulo criador expresso algumas vezes neste artigo não tem a mais remota conotação divina. 

 

Há típicas interrogações que nos bombardeiam e catalisam com insistência, as quais por vezes até parecem resolvidas, mas depois apercebemo-nos de que não sabemos nada. A verdade é que não é apenas a nossa dimensão que é pequena quando analisada comparativamente com o universo: o nosso conhecimento é igualmente pequeno.

 

São questões que se acendem de modo repetitivamente impertinente; e nem a ciência, nem a religião têm solução para perguntas que, embora se afigurem como simples, nós não estamos a ser capazes de dar com a resposta. Inferências quase banais como: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

A religião é assaz aventureira na disposição de justificações mal fundamentadas, as quais raramente podem ser questionadas. Deus nos livre. Mas na realidade até se assemelha à ciência quando se inclina para tentativas explicativas do Universo. É pena é que as teorias religiosas nunca sejam testáveis, inteligentes e se situem sempre em ponto contrário a tudo o que cientificamente aprendemos.

Todavia não é apenas para fins religiosos que a imagem de um criador parece fazer falta, pois para alguns físicos (não julguemos já a sua posição) não está desqualificada a hipótese de termos sido obra de uma entidade assim. Que rica obra, penso eu por vezes… No entanto, o problema concernente à religião é que ela assevera dogmaticamente, rejeitando a procura e cerrando as portas às respostas que acarretam uma mudança que possa ser responsável pela queda dos altares e consecutiva perda de fiéis.

Mas vamos deixar a teologia de lado que não nos leva a lado nenhum e vamos recuar até ao ponto que aceitamos racionalmente como marco do início do tempo: o Big Bang. Simplificadamente falando: uma expansão do espaço-tempo que criou tudo o que hoje vemos e não vemos, que conhecemos e que ainda não imaginamos. Assim descrito, o nascimento do Universo parece simples, fácil. Deu-se um enorme e excecional BANG e já está. Certo?

 

bang

 

Não. Não é assim tão simples nem tão linear, vamos pensar juntos:

No universo existem 4 forças básicas: a força eletromagnética, a força nuclear fraca, a força nuclear forte e a força da gravidade.

As primeiras 3 foram unificadas na Teoria Quântica, enquanto a Força da Gravidade (ainda) permanece isolada. Todas elas possuem constantes físicas. Estas mesmas constantes medem o quão potente determinada força é, qual o seu alcance, ou mesmo o modo como ela se comporta, podendo ser atrativa, repulsiva ou ambas.

Cada uma dessas constantes tem um valor preciso, sendo esse valor o mesmo tanto para a superfície da Terra, do Sol, da Galáxia de Andrómeda ou de uma estrela de Neutrões. Pedimos desculpa aos buracos negros, mas por enquanto devem ficar de fora quanto a esta questão.

 

Constante Gravítica 6.674287*10^-11 m^3 kg^-1 s^-2

Constante Electroestática 8.9878*10^9 N m^2 C^-2

Constante de Planck  (e.g.) 6.6260693*10^-34 J.s

 

Dito isto, faz aqui pop-up um aparente busílis: estas constantes são de tal modo precisas que uma ínfima alteração desses valores faria com que o universo fosse impossível de existir. Ou seja, se a constante da gravidade (ou qualquer outra) fosse modificada em apenas uma pequena fração, o universo não existiria e nós não estaríamos aqui agora nem a ler, nem a pensar no que vamos fazer a seguir. Seria o nada na sua conotação mais absoluta.

Passamos a explicar.

Com uma gravidade apenas um pouco mais forte, dar-se-ia o colapso total em enormes buracos negros e nunca haveria galáxias, estrelas ou planetas. Ou qualquer um de nós. Uma gravidade mais fraca faria com que os átomos voassem pelo universo fora sem nunca formar galáxias, estrelas e planetas. Ou qualquer um de nós. O mesmo se aplica, por exemplo, ao eletromagnetismo: se a força nuclear forte fosse 2% mais forte, mesmo que se mantivessem todos os outros parâmetros inalterados, o hidrogénio que as estrelas queimam para nos fornecer energia seria absolutamente consumido nos primeiros minutos do universo, condenando a existência a partir desse ponto.

Como estão a ver, qualquer pequena variação destas constantes já por si bastante restritas sentenciaria o universo à morte quase antes de qualquer nascimento.

Deste modo é tentador pensar que os parâmetros essenciais para que o universo possa existir tenham sido ajustados com precisão premeditada, pois as probabilidades de alinhamentos numéricos assim acontecerem naturalmente são proporcionais a ganhar o euromilhões todas as semanas durante 1 milhão de anos.

Dado estas improbabilidades, os físicos recorreram à conceção de universos cíclicos, bem como de universos com 11 dimensões, perfazendo 10^500 universos possíveis. Os quais servem para explicar apenas 1 – o nosso.

Ou seja, em 10^500 universos possíveis – ainda por encontrar e potencialmente mortos na maioria – as condições para que exista vida estão presentes em apenas meia dúzia deles, e nós fazemos parte dos safados afortunados. Lá estamos nós, como já fizemos no passado, a colocarmo-nos numa situação privilegiada. Desta vez não é o Sol que gira em torno de nós, mas é o nosso universo que é o melhor.

 

E então a gente pensa… Mas anda alguém por detrás disto tudo?

O que é que nós somos?, o pequeno fruto de uma civilização assoberbadamente manipuladora, mas detentora de uma vasta experiência no manuseio de aceleradores de partículas?, capaz de pôr e dispor das nossas volúveis e pequenas existências? Ou seremos todos uma simulação informática, à laia de SIMS, na qual as condições quase impossivelmente proporcionadas do nosso universo foram dadas por um programador cósmico?

Muito semelhantemente ao que nós mesmos fazemos no CERN…

 

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Ou será que… O Universo sabia que nós íamos aparecer?

A esta ideia de brilho duvidoso dá-se o nome de Princípio antrópico, a qual assenta na teorização de que o Universo tem de ser consistente com a existência humana, insinuando uma sintonização perfeita das constantes físicas para que nós pudéssemos estar a agora na Terra a beber um chazinho.

Não sei é porque é que lhe deram esse nome, eu cá chamar-lhe-ia Egocentrismo.

 

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Qual delas poderá ter razão? Quem poderá estar a fazer isto?

Provavelmente nenhuma das duas.

 

Quem poderá estar a fazer isto? A seleção natural.

 

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Não acredito que a seleção natural seja ferramenta exclusiva da Terra, mas sim um utensílio de adaptação evolutiva universal. Conceber criadores, contas caprichosas, planos meticulosos de um Universo como anfitrião atencioso, pode equivaler à desvalorização da inteligência natural da evolução.

Os números descritos que evidenciam uma sintonia suprainteligente podem não ter nada de programado, nem de aleatório. A evolução assente na seleção natural não atinge resultados de forma fortuita, mas através da memorização progressiva, digamos assim, de características, de parâmetros, de algarismos, que serão favoráveis para a concretização de um produto final – o qual, depois de longos tempos de ajustes e adaptação poderá parecer-nos exponencialmente bem realizado. Nalguns casos, está mesmo. Noutros…, assim-assim.

A teoria dos 10^500 universos como forma de resolver inúmeras coincidências cósmicas, em que nesse abismal número de universos a maior parte deles está morto – porque o protão não é estável, porque os átomos não se condensam, o ADN não se forma – e o facto de o nosso ter escapado cheio de estilo pode dever-se apenas à lei da média.

 

Vamos dar uma voltinha atrás no tempo até a algumas das fases da história do Universo.

O surgimento dos primeiros átomos ocorreu quando o Universo tinha 380 000 anos. Como todos nós sabemos, sem átomos nada mais há.

Com 1 milhar de milhões de anos, o Universo assistiu à condensação das estrelas: os quasares, as galáxias e aglomerados de galáxias começaram a condensar-se como resultado de ínfimas flutuações quânticas da bola de fogo de deu origem ao universo; nesta etapa as estrelas começaram a cozinhar os elementos mais leves, como carbono, oxigénio e azoto. As que explodiam expeliam elementos mais pesados que o ferro.

Com 6.5 mil milhões de anos o Universo entra na fase de expansão de Sitter – uma expansão desmedidamente acelerada conduzida por uma força de antigravidade que não é compreendida. Se houve alguém a criar o Universo…, não fez muito bem as contas quanto a esta ponto, pois não?

Hoje, com 13.7 mil milhões de anos, temos o que temos enquanto a aceleração descrita acima não dilacerar tudo isto. E depois de o fazer, não restará seguramente muita beleza ou simetria algorítmica. No entanto, é inegável que a natureza teve tempo para realizar contas adaptativas e conseguir os resultados que agora vemos – embora nem todos os dados apontem para beleza, perfeição, ou programação planificada. Existe a falha na mesma medida que existe a beleza.

Pois se se pensar que o Universo se preparou para o nosso surgimento, não sei se foi demasiado perfecionista com pormenores ou se deu em procrastinar, é que humanidade aparece quando a temperatura do Universo está próxima do 0. Que excelente anfitrião. Talvez até não encontremos outras civilizações por aí porque já todas morreram e nós somos os últimos da linha.

De igual modo, se se aceitar o Universo como propiciamente adaptado à vida (humana, tenho de vos fazer lembrar que há muitos mais locais onde não se pode viver do que aqueles em que se pode. E eu não sei que arquiteto concebe um condomínio imenso no qual só uma casa é habitável. Ou duas, ou três.

 

Talvez não existam sequer respostas para os tópicos Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Talvez tudo o que exista seja meramente biológico/físico e a nossa carência de repostas aliada ao pensamento é que ornamentam e compõem o resto do cenário, o qual é em grande parte também recriado por nós.

Quanto a criador, a nossa imaginação é o candidato mais favorável.

 

 

Paula C Costa; Luís Filipe Santos

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