Os Sapatinhos Verdes

A estrada era larga. Ladeada de ambos os lados por árvores, cujos ramos lançavam sombra que refrescava. Longa e direita, ajudava o caminhante a atingir o seu final. O sol abrasava, tentando com os seus raios abrir caminho por entre as folhas, que teimosamente, continuavam unidas.

Mas Pepe não desanimou e caminhava para chegar a casa, a tempo de resolver um problema relacionado com o seu negócio. Negócio? Pobre Pepe… Uma sapataria que estava a cair aos pedaços, ninguém se interessava por ela.

Pepe havia construído com amor e não queria se desfazer, de ânimo leve, dos seus caixotes cheios de sapatos antigos, mas que a seus olhos bondosos, os via belos e imponentes, orgulhosos de estarem em prateleiras de madeira envernizada.

Este jovem, de quem os vizinhos riam ternamente, era de uma figura simples, franzina, de cabelo liso e escorrido, olhos grandes, que viam o mundo através do seu coração que era enorme.

E Pepe apaixonara-se. Sim! Por uns sapatinhos de cor verde, que ele guardava como relíquia. Nunca os pôs na montra com medo que alguém os levasse. Mas o negócio não ia bem e Pepe teve de se fazer forte e colocou-os junto com os outros, que já lá estavam há algum tempo. A montra iluminou-se. E Pepe foi deitar-se.

Os suspiros começaram e aconchegando-se, os sapatos procuraram aquecer-se uns nos outros, já fartos de esperar. Não repararam que num cantinho, timidamente instalados, estavam os sapatinhos verdes. Até que um espirro saiu do canto e todos voltaram as biqueiras num ranger de solas. Olharam e viram… Sapatos verdes?! Que ideia! E voltaram-se desdenhosamente, os sapatinhos verdes ficaram tristes, mas não desalentados. E numa volta de tacões, sacudindo-se, procuraram colocar-se bem na frente de todos, para que eles os admirassem. Houve novo ranger de solas iradas para mandarem embora o intruso. Mas… Oh espanto! Na sacudidela frenética que deram, os sapatinhos brilhavam, os lacinhos que os compunham inflaram e ficaram direitos, belos, como verdes que eram, num verde de esperança e ali ficaram à espera.

O dia clareou, bonito e ameno, num convite para os apreciar. Os passeios encheram-se de pessoas, que num passo vagaroso, ia admirando as montras, que cheias de produtos as atraiam. Todavia eis que daquela montra insignificante saiam reflexos verdes e descobriram que vinham de uns sapatinhos, que orgulhosos, ostentavam a sua cor. Cor que encheu os corações de ternura de quem os admirava. Pepe espantou-se, pois a sua loja estava cheia de gente. O seu negócio prosperou, vendeu imensos sapatinhos de todas as cores, mas o verde ficou como o da natureza, esperança e amor.

 

Autora: Ana Costa (mãe)

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