Foi um OVNI ou um mau raciocínio?

 

OVNIs. Quase todos nós já os vimos, ou não? Bem, eu ainda não, não sei se por falta da utilização de óculos, se por demasiado uso de ceticismo.

No entanto a minha dúvida fulcral é a seguinte: viram um OVNI ou foi apenas um mau raciocínio que vos passou pela cabeça?

 

Sem demais preâmbulos, vamos já esclarecer um ponto, cuja clarificação nos vai ser muito útil no desenvolver dos conceitos que vão entrar em jogo neste artigo. Um OVNI é um objeto voador não identificado, conforme assinala o respetivo acrónimo. E a tradução da sua acronímia não nos é de todo estranha, mas vou tentar explicar ainda um pouco melhor: qualquer coisa que vejamos a voar para a qual não se encontre identificação, é um OVNI.

No entanto quero recordar e sublinhar que a maioria – grande maioria – dos objetos voadores que são avistados têm uma explicação plausível e racional, embora essa possa não ser do conhecimento das pessoas que os avistam. E é neste momento que é basilar o estabelecimento de uma diferenciação terminológica: um OVNI não é uma nave extraterrestre. Simplesmente não é. É unicamente, como, sobredito, um objeto voador não identificado.

Atualmente, 95% de todos os avistamentos estão justificados científica e racionalmente, sem ter de recorrer a pretextos extraterrestres nenhuns. Poderão ser anomalias atmosféricas, como blue jets, luzes de Lubbock, gás de pântano (biogás/tr.: swamp gas), nuvens lenticulares, entre outros; ou também protótipos de naves das mais diversas potências militares. Se recordarmos imagens de OVNIs das décadas de 70/80, a maioria corresponde ao B-2 e ao F-117. Logo, o que se avista na atualidade são possivelmente as naves militares de um futuro próximo.

 

B2
B-2

 

F-117
F-117

 

É apenas para 5% dessas observações que não temos ainda justificação. Sublinho: ainda. Todavia o facto de essa pequena percentagem estar envolta em desconhecimento não legitima a afirmação de que é, ou possa ser, de natureza extraterrestre. Para o assegurar, necessitaríamos de recolher ADN (ou um chip) alienígena. Decididamente também não é por não termos conseguido até ao momento essa recolha determinante que podemos afirmar o seguinte: Então se não conseguem provar que não são ETs, é porque são (ou podem ser).

Acabou de entrar em campo a falácia lógica nº1.

 

Argumentum ad ignorantiam

O argumento da ignorância. Esta técnica de argumentação falaciosa pretende provar que se a(s) premissa(s) é falsa, então a conclusão também será. Ou seja, como os cientistas não detêm provas de como esses avistamentos não são efetivamente de seres alienígenas, então devem ser. É possível que sejam.

 

Sim, claro, tem tudo a ver, tanto quanto uma telha e as minhas peúgas estão intimamente interligadas. Vou fazer o meu melhor para dizer isto sem ferir raciocínios retorcidos sensíveis: o facto de ainda não termos provas significa apenas e somente que não temos provas ainda. Ponto final.

Temos de esperar até as conseguir, ou podemos sensata e pacientemente cingirmo-nos ao que sabemos: a percentagem declaradamente esmagadora de observação de OVNIs que está atualmente explicada. Sobre essa podemos conversar. E considerando que este é um número demarcadamente alto, confere aos observadores uma ampla margem de manobra para procurar, pesquisar e encontrar uma resposta para o que viram. Sim sim, porque consideravelmente elevado também, na minha opinião, é o número de pessoas que olham para o planeta Vénus ou para um satélite e num misto de júbilo e exaltação cardíaca declaram ser um OVNI, não estando a referir-se a um objeto sem recognição como já definimos de início, mas sim algo extraterreno! Deus os livre de verem swamp gas, nuvens lenticulares, um balão meteorológico ou qualquer outra coisa do género.

 

nuvens lenticulares
nuvens lenticulares

 

Desde não saber o que se vê até afirmar que são ETs vai um longo caminho falacioso.

Quanto a esse fenómeno antropológico descrito acima, de forma muito pessoal, confesso que tenho alguma dificuldade em entender como é que tantos de nós passam uma infinitude dos seus tempos livres, e laborais, nas redes sociais, contudo não dedicam 10 minutos do seu tempo a uma pesquisa on-line a fim de procurar o que verdadeiramente viram. A fim de descobrir, aprender, expandir o seu conhecimento, e consequentemente melhor opinar antes dizer que Vénus, a Estação Espacial Internacional ou um dirigível são naves que vieram de uma galáxia do futuro com seres esverdeados já catalogados pelos Russos e prontinhos para os levar para lá onde o sol não brilha. Pelo menos o nosso.

Por favor. Já pararam para pensar por que é que as pessoas que não creem nisto nunca veem nada? Pois é.

 

blue jets
blue jets

 

Deem as boas-vindas à falácia nº2.

Deificação

De modo simplista e muito direto, consiste em atribuir uma fundamentação divina a algo que não se compreende. No entanto, numa atualidade mormente norteada pela ciência que promove esclarecimentos para tudo ou quase tudo já não fica bem outorgar a Deus e respetivos colaboradores a responsabilização por esses avistamentos abissalmente enigmáticos. Claro que não, foram os ETs.

 

Oh francamente.

Aliás, Deus – infelizmente – é uma admirável desculpa para não se ter de procurar por outras respostas, é um método deveras propício para permanecer numa penumbra de preguiça intelectual. Por outro lado, agrada-me arrebatadoramente a existência de pessoas que são impermeáveis a esses automatismos divinos de raciocínios, pois se assim não fosse ainda não conheceríamos sequer o ciclo da chuva.

Para mim, afirmar que foi Deus, um santo, um fantasma ou um ET vai dar tudo ao mesmo. Comprometer qualquer uma destas entidades conduz rapidamente à falácia nº3:

Falácia red herring (nariz vermelho ou de palhaço)

Esta introduz no debate argumentativo uma informação emocionalmente instável que é intencionalmente calculada para agitar determinada audiência, ie, é um apelo direto à emoção, não à razão. E que emoção!, até a comunicação social anda num rodopio com estas coisas.

 

swamp gas
swamp gas

 

Como estamos a ver até ao momento, os OVNIs que são naves de ETs magritos e de olhos esbugalhados estão a perder terreno no jogo da razão. Falácias lógicas 3 – OVNIs alienígenas 0.

 

swamp gas

 

Mas há mais. Ora se há.

Se não quisermos atender a sinuosidades de pensamento demasiado filosóficas, podemo-nos sempre valer da falácia nº4, a qual dispensa demais introduções e opera como um adaptador universal para ocorrências paranormais. Tenho o prazer de vos apresentar:

Falsas suposições

Trata-se de presumir que alguma coisa seja verdadeira e aceitá-la assim sem se estar certo disso. Não me parece que tenha de acrescentar mais detalhes descritivos quanto a esta, pelo sim pelo não, vou relembrar que há explicação para 95% de avistamentos de OVNIs. Se a nossa experiência couber ironicamente nos pequenos 5% de natureza desconhecida, logo que incorramos no deslindar de uma afirmação categórica (sobretudo ao escolher um item fora das listagens racionais), estamo-nos a implicar automaticamente numa falsa suposição. Ao conjeturarmos que pode ser algum fenómeno meteorológico, por exemplo, estamos igualmente a presumir e há naturalmente a possibilidade de não acertarmos, porém ao menos a nossa suposição aponta para uma zona lógica de veracidade.

 

Penso que o seguinte é claro para todos, porém se não for, quero que atentem ao seguinte fator: se o nosso argumento é sustentado por uma lógica falaciosa, perde imediatamente a razão. Como poderão querer discutir coerentemente que avistaram uma nave de z8-GND-5296 ou de outro sítio qualquer se só o facto de o dizerem já incide numa falácia? Premissas enganosas levam a um desfecho falso, como ovos podres conduzem a um bolo estragado.

 

us air force aircraft identification chart

 

Eu ainda não terminei. Vamos juntar mais duas falácias ao baile, para eu poder parar de bater no ceguinho – embora todos saibamos que o pior cego é o que não quer ver. Aqui vêm elas:

Argumentum ad nauseam (argumentação até provocar náusea) e Ad populum (apelo à multidão)

A primeira surge quando se acredita que a probabilidade de algo ser verdadeiro é maior se for repetido várias vezes. Pretende-se convencer as pessoas não pela veracidade da evidência em que se sustenta a afirmação, mas sim pela constância da repetição. Não é a esta que recorrem as classes políticas, repetindo circularmente os mesmos argumentos, mas nunca parece ser verdade?

Na segunda, invoca-se a popularidade de um facto, com o objetivo de que muitas pessoas concordem com ele, visando a sua validação. Só que uma ideia não é válida apenas por ser popular. Os reality shows têm índices de popularidade estrondosos e o que menos há por ali é validação lógica. Uma moda é só uma moda. A lógica é a medida de coerência com que se expressa a inteligência.

 

swamp gas
swamp gas

 

Podíamos ainda associar mais falácias a esta dúbia questão de avistamentos de pessoal escanzelado de outros planetas, tempos ou dimensões, como por exemplo:

 

Apelo à autoridade

Recorremos a um nome de destaque social para tentar sancionar determinada conclusão. Vou exemplificar, pensemos no Bill Clinton. Se uma ilustre personalidade como ele esteve aberta à possibilidade alienígena, então deve ser verdade.

Lá aberto a possibilidades esteve ele.

 

E se eles estiverem por aí? Qual seria a civilização que viajaria milhares de anos-luz para raptar meia dúzia de pessoas ou para chupar o sangue às cabras?

Para terminar, vou retomar onde iniciei: OVNIs. O que é que viram exatamente?

 

 

Com a ajuda (aeronáutica) de Luís Filipe Santos

17 comentários Adicione o seu

  1. Lucas Cruz diz:

    Olá, gostaria de saber qual a referência para “Atualmente, 95% de todos os avistamentos estão justificados científica e racionalmente, sem ter de recorrer a pretextos extraterrestres nenhuns.”

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Olá, Lucas. São dados do Dr. Michio Kaku.

  2. Alberto diz:

    Muito bom ponto de vista.
    Adorei os artigos e a maneira como são dirigidos para levar à razão.
    Não sei quem são as ideias destes temas, mas estão a fazer um excelente trabalho.

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Muito obrigada, Alberto.
      São ideias de um e ideias de outro, é assim que se constrói trabalho em equipa. 🙂

  3. Joana diz:

    Gosto do humor.

    Para quando a análise aos 5%?

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Olá, Joana, obrigada pelo comentário.
      A análise dos 5% vai ficar para quando esse número pertencer aos 95%. 😉

  4. Sonia diz:

    Oh Luís, vê-se mesmo que tem o teu dedo. Gosto da parte da comparação com os aviões, mas muitas das fotos que existem não tem nada a ver com esses dois.
    Pronto, ok, são os que vão aparecer daqui a uns anos, mas e se não.
    As grande potências não tem espiões noutros países. Se calhar os que vemos aí são espiões ETs.
    Não quero parecer fanática, mas acho que existe algo mais e que não nos contam.

    1. Luis diz:

      Olá Sónia.
      Não quero entrar em teorias da conspiração, por exemplo o governo americano já subsidiou a construção de “discos voadores”, podes pesquisar no google “Avrocar”, no entanto essa ideia e alguns projectos já vinham do tempo to III Reich.
      Acredita, se de facto os ETs tem espiões na Terra, estes não andam a fazer círculos no milho nem a raptar pessoas para lhes colocarem implantes.

      Se os governos sabem mais do que dizem? Boa pergunta. Essa quem te a tem de responder é o Passos Coelho. Tudo o resto são teorias da conspiração, e neste espaço não lidamos com isso.
      No entanto a notícia da descoberta de uma civilização extraterrestre teria de ser dada cuidadosamente à população global. Se nós ainda não conseguimos lidar bem com pequenas diferenças dentro da nossa própria raça humana, quer sejam diferenças físicas como cor da pele ou diferenças ideológicas como a religião, como achas que a população mundial reagiria a uma notícia desse calibre? Se tu e eu poderíamos aceitar relativamente bem essa notícia, 99% da população mundial com profundos laços religiosos e ideológicos reagiriam de uma maneira completamente imprevisível.
      Basta veres o exemplo do nosso próprio país, de brandos costumes e com a fama de bem receber qualquer um, muita gente se levanta contra o facto de receber famílias de refugiados de guerra, se de facto tratamos assim os nossos próprios “irmãos” humanos, achas de facto que estarias prontos para receber “convidados” doutros sistemas solares?
      Por isso até compreendo (mas não creio que seja verdade) se de facto os governos souberem mais como tu dizer, não o revelarem com medo ao desmoronamento da própria sociedade.

  5. Marco diz:

    Bom trabalho! Sou a favor da tua opinião em tudo, principalmente no fato de tudo o que não aparenta ter explicação ser obra de Deus e pronto, ponto final. Fiquemos por aqui. Para além disso fiquei a conhecer uns acontecimentos que desconhecia com os gases e todas as substâncias que existem no além como por exemplo aqueles Blue Jets, achei muito engraçado. E por último: Houve uma noite que eu estava a contemplar o céu e vi um OVNI (ironicamente falando). Dava para perceber que ia em direção à lua, mas podia ser uma mera coincidência. Era redondo porque enquanto esteve próximo ( o que não era propriamente perto) notava-se umas luzes vermelhas que corriam na sua periferia. E depois haviam outra luzes brancas e vermelhas que piscavam apenas. Fiquei com a ideia que era um satélite, como quase de certeza deve ser. Concordas?

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Obrigada pelo teu comentário, Marco.
      Acho que o que viste eram os egípcios de Ceres a ir para a lua que afinal é uma sonda que eles construíram. 😉
      http://ohnao.com/as-misteriosas-luzes-de-ceres/
      Achas que podem ser red sprites? Ou parece-te mais com uma aeronave?

    2. Marco diz:

      Sim, exatamente! 😀 Epá, isto agora… Tenho a certeza que um red sprite não era porque notava-se um volume. Era algo mesmo criado pelo Homem. E não te sei esclarecer melhor que isso :/

    3. Luis diz:

      Mas foi mesmo em direcção à Lua ou foi ilusão de óptica?
      Em relação às luzes que piscavam poderiam ser perfeitamente as navigation lights dos aviões, mas para as luzes que percorriam a “fuselagem” não tenho explicação. Não poderiam ser as janelas abertas de um avião com luz no seu interior?

    4. Marco diz:

      Luís, digo que parecia ir em direção à lua porque o objeto estava a desaparecer nesta direção daí eu pressupor que sim. Um avião também não era certamente. Tinha mesmo ar de aeronave, algo incomum nos céus.

  6. Marina diz:

    Muito bom!!! 🙂

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Muito obrigada, Marina. 🙂

  7. Manuel diz:

    Muito bons, com muito sentido de humor!

    1. Paula C Costa Paula C Costa diz:

      Obrigada!

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