A pastagem de duas vacas

 

Eu sei perfeitamente que há um grande orgulho regional com as nossas vacas, também gosto delas. Gosto bastante. Contudo antes da importação das vacas de raça pouco nacional, já cá estava a terra, há muito tempo. Terra que temos por vezes dificuldade em aceitar que a ela pertencemos como a pequena parte que somos no ecossistema. Pelo contrário, a nossa tendência preeminente ancorada num grande ego e pequeno intelecto é a de controlar e avassalar aquela que está verdadeiramente na posse do rumo da humanidade: a natureza. Subjugamos de igual modo, como bons alpinistas evolutivos que somos, todos os outros que nela habitam.

Adiante.

Passei por uma pastagem com duas ou três vacas apenas, sendo ainda um terreno de dimensões consideráveis. O que para nós que levamos com essa realidade nos olhos diariamente não é fonte de grande espanto, torna-se monotonamente banal e reprime a análise racional. Todavia um grupo de fatores profissionais (e não só) em mim permitiu-me observar a situação de outra perspetiva, isto é, levando-me a calcular o volume sobremaneira maior de comida que se conseguiria cultivar naquele espaço. Com práticas de agricultura equilibrada e sustentável, seria possível construir um centro de produção alimentar com claramente mais utilidade, dado que aquelas vacas aquando da morte e desmancho perfazem um volume obviamente menor de alimento, o que se destina consequentemente a muito menos pessoas. Se ainda considerarem os animais como comida.

No entanto a problemática do inadequado uso de espaço não se fica por aí. Pois essa pastagem – bem impregnada de quaisquer e todos os químicos nocivos possíveis que façam a erva crescer mais e mais rapidamente para mais rapidamente levarmos a carne do prado para o prato -, essa pastagem não é de todo suficiente para essas poucas vacas. Mais um terreno, ou talvez dois, para as rodar quando tiverem já comido toda a erva. Todos nós conhecemos bem as trocas de pastagem. O que significa uma multiplicação ainda maior na conta alimentar que fiz acima. Cuja importância é comparativamente mais notável se atentarmos à quantidade de comida que é importada, somente porque abusamos do espaço com más escolhas e prioridades despropositadas, como o número abíssico de vacas que temos. Que, repito, feitas em bife traduzem-se numa quantidade de comida obviamente menor e de obviamente menos qualidade. E nem interessa se seriam mais vacas ou não, o espaço está a ser terrivelmente mal utilizado, do ponto de vista alimentar e de sustentabilidade ambiental.

E eu nem falei da água – que um dia se vai esgotar – que é desperdiçada em todos esses hábitos da carne, toda a água que esses animais de grande porte necessitam de beber, que se perde no vazio ridiculamente pulverizado por baixo dos seus pés; e se pensarmos que as nossas vacas são leiteiras e que qualquer fêmea lactante precisa de mais água, logo concluo que nenhum de nós quereria pagar essa conta, a qual está a ser debitada no nosso saldo já negativo de recursos planetários.

 

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