Polvo. Inteligente ou guisado?

Originalmente publicado em Açoriano Oriental 

 

Já sei. Guisado, não é? E por que não… cão guisado? É estranho? Mas porquê? Eu explico. Os cães tem sido cuidadosamente modificados geneticamente ao longo dos tempos para servirem os mais diferentes propósitos dos nossos interesses. Isto é, são animais de companhia, de guarda, de caça. São amigos. E a razão mais comummente apontada é a sua inteligência – ninguém quer comer um animal inteligente. Por esta mesma razão muitas pessoas não querem comer um golfinho, mesmo não sendo um amigo tão próximo quanto o cão. O fator inteligência é de relevância acentuada.

Mas os polvos são inteligentes?

Os polvos são capazes de determinados níveis de aprendizagem, comportamentos e características que nem algumas pessoas conseguem. Afastem por uns minutos a imagem do polvo desmembrado e cozinhado com batatas, e olhemos isentamente para a sua natureza.

Com três corações e o que se pode considerar nove cérebros, pois 2/3 dos seus neurónios localizam-se nos braços, tendo estes vontades e raciocínios próprios, o polvo é um animal indiscutivelmente inteligente. Os polvos avaliam e reconhecem situações através do toque dos seus braços, podendo reconhecer uma pessoa. Uns revelam-se tímidos, outros curiosos. Os polvos são mesmo capazes de prever erupções vulcânicas no seu habitat. Os polvos manipulam objetos/ferramentas de modo a concretizar os seus objetivos, resolvendo problemas complexos com os quais nunca antes haviam sido confrontados.

Estudos

Estudos revelam claramente que estes animais ultrapassam rapidamente dificuldades com objetos inexistentes no seu mundo, como abrir frascos ou abrir/atravessar complexas caixas a fim de alcançar comida seu interior. Não só o fazem, como ao colocar um outro polvo a observar o primeiro a fazê-lo, é capaz de reproduzir exatamente a mesma solução em poucos segundos. Analogamente seria como ensinar as pessoas a manusear uma desconhecida gerigonça extraterrestre. Muitas pessoas não seriam capazes de o fazer; aliás muitas ainda nem nas rotundas aprenderam a circular.

Os polvos cambiam a sua cor e textura segundo a sua vontade – não apenas para padrões existentes na natureza, mas, novamente, para desenhos não presentes nos mares e com os quais nunca haviam tido contacto anteriormente, após uma rápida avaliação dos seus braços. As fêmeas tomam conta dos seus ovos durante seis meses sem sair vez alguma para se alimentarem. Conheço pessoas pouco capazes de uma dedicação semelhante.

O polvo mímico da indonésia

Esta espécie tem uma elevada e fascinante consciência do seu aspeto e de o de outros animais em seu redor, usando-o a seu favor. Consegue adaptar deliberadamente o seu corpo de forma a imitar uma solha para fugir de predadores; mimica perigosos peixes-escorpião; para se proteger, esconde-se deixando dois braços de fora, ajustando também a coloração para se parecer com uma temida cobra-do-mar; reproduz caranguejos eremitas escondidos em conchas roubadas; finge ser rápidos chocos de figura admiravelmente parecida.

 

Os polvos são os alienígenas do nosso imaginário, cujas características projetamos em livros, fantasias e associamos a seres magníficos que podemos vir a descobrir noutros mundos, noutros planetas. Contudo, neste planeta, ignoramos qualquer uma das suas capacidades para os comermos com batata. E sem necessidade factual e/ou nutricional para tal – um aspeto é o da necessidade, outro coliga-se a argumentos manipulados com fim a servir um interesse próprio: e isto é apenas conveniência.

Polvo: respeitar a vida ou comer?

Os polvos são inteligentes e fascinantes Penso que concordam comigo nesse aspeto. Então por que o argumento da inteligência se adequa a cães e golfinhos mas não aos polvos? De algum modo delineamos uma fronteira cultural entre o que é um animal de estimação e um animal de comer, entre um que deve ter direitos e outro que é apenas um produto, e entre o que deve ter uma família e outro que deve ser privado dela, entre viver livre e viver preso em gaiolas, em marmitas, em estábulos agoniantes, em gaiolas utralotadas. Em laboratórios. Em zoos.

 

São fatores meramente culturais sem validação lógica que predefinem o destino de uns e de outros. Manter uns longe da vista e do coração, trazendo-os apenas para o prato venda-nos a perceção e coibi-lhes a possibilidade de uma personalidade, de individualidade – aquelas que reconhecemos tão bem nos animais que determinámos socialmente que deveriam ser de estimação.

 

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