A saga do leite. Continuemos.

Originalmente publicado em Açoriano Orienta

Primeira parte aqui

Continuando então vamos voltar um pouco atrás. Vimos alguns aspetos sobre o ambiente e os animais, tendo-nos faltado a premissa do cálcio. Ainda assim devo acentuar que qualquer dado que tenha mencionado, qualquer informação que vos tenha dado, são apenas pontilhados no muito que há a dizer sobre estas questões, no muito que estamos a agredir o planeta. No muito que estamos a subjugar os animais manifestamente para lá do que se pensa ser por necessidade.

Necessidade ou hábito?

Porque realmente não há necessidade – há réstias dessa ilusão aliadas a uma vontade adornada de indulgências. Infelizmente não sei se há palavras suficientes para vos mostrar o que se está a passar, que estou segura de não ser do agrado de ninguém.

Mas vou tentar.

Sim. Cenas destas nas quintas/matadouros não são incomuns. Com a procura incessante que há de produtos animais é impossível que sejam respeitados como forma de vida. E não se esqueçam que sempre que consomem produtos estrangeiros, como chocolates (justificando que em Portugal ou nos Açores é diferente), o leite de má qualidade neles contidos é com larga possibilidade obtido por meios assim. Não, não quero nem carne nem leite, obrigada.

99% do alimento disponível pertence ao reino vegetal

Vamos começar por considerar percentagens concernentes à disponibilidade de alimento na Terra: 99% do alimento pertence ao reino vegetal. Logo, vamos fazer uma simples conta juntos. Idealmente fazemos entre 5 a 6 refeições diárias, em todas elas incluímos – como bem ordena a cultura – produtos de origem animal. Correto? Não se trata apenas de um bife titanesco com um ovo frito à refeição, mas também de manteiga, queijo, fiambre, leite, iogurte intervalados pelas refeições complementares. Bem como outros produtos processados que incluem desde leite até óleo de peixe na sua composição, por exemplo. Correto?

Cálcio e desgaste ambiental

Então se todas as nossas 5 ou 6 refeições, durante toda a nossa vida, da maior parte dos 7 mil milhões de nós, está assente em produtos de origem animal, enquanto a maior disponibilidade é vegetal, como é que esta forma de vida pode ser sustentável? Resposta simples: não pode. E se considerarmos o espaço de produção que consome a alimentação tradicional, bem… categoricamente uma Terra não chega. E o que vamos verificar de seguida que sucede na estória do leite e do cálcio, acontece analogamente com todos os outros alimentos de origem animal.

E os ovos tão amarelinhos que temos à mesa é assim que são conseguidos, através de sofrimento e injustiça assim. Mais uma vez, não são casos isolados. Não, também não quero ovos, obrigada.

Em vez de inúmeros copos de leite para cálcio (variando circunstancialmente), podemos facilmente substituí-los por outras fontes ricas nesse elemento. Eg.: couve, mostarda, agrião, brócolos, rúcula, sementes de gergelim, tofu, entre outros. Económicos e de aquisição fácil, permitem poupar os animais, o planeta e contornando assim o colesterol que vem incluso no copo leite. Incluído no leite e em qualquer produto de origem animal.

Colesterol

Qualquer organismo, o meu e o vosso também, produz o seu próprio colesterol – o necessário. Ao comermos animais, comemos também o colesterol que era deles; aumentando assim os nossos valores. Além de que qualquer benefício ósseo usualmente associado ao leite pode ter o efeito adverso. É curioso que países com o maior consumo de leite apresentam uma maior taxa de osteoporose.

Tofu grelhado; receita: http://www.seriouseats.com/2016/03/tofu-recipes.html

Concordo que pode parecer excêntrico numa primeira abordagem uma alimentação maioritária ou até estritamente do universo vegetal, todavia ao sabermos que suprime qualquer necessidade que poderia advir de um produto animal e sem as componentes prejudiciais desta última, então por que o fazemos?

Decisões ou tradições?

A decisão do que beber ou comer cabe a cada um – todos nós fazemos o melhor que podemos com o conhecimento que temos. Mas tendo esta informação comigo e a nítida noção do que causa ao planeta e a todos os que nele coabitam, sinto-me compelida a partilhá-la convosco. Atualmente os hábitos de comer sobrepõem-se sobremaneira aos hábitos de pensar. E se pensarmos, já tantos dogmas, preconceitos, tradições combatemos socialmente no passado ao ponto de todos nós concordarmos agora em o quanto errados eram.

 

E por que escolhi eu discutir o leite e não outros produtos animais, se tenho vindo a defender que vai tudo dar ao mesmo? Por que o leite está revestido de uma inocência tão branca quanto ele, embora o processo que o sustenta não é de todo melhor que o que está por de trás do negócio da carne. Elementarmente é tudo o mesmo empreendimento.

E então, por que o fazemos? Por que estamos habituados. Por que sabe bem. Embora não acredite que sejam razões racionalmente válidas. Mormente ao ponto de devastar a Terra, os animais que cá vivem connosco, e nós mesmos. Se somos nós os seres mais inteligentes, como nos apraz acreditar, temos de conseguir fazer melhor que isto.

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