Se observado, logo existe?

 

Quando confrontada com problemas teóricos decorrentes da experiência mental à qual Schrödinger submeteu um pobre gato dividido na ambivalência e existir morto e vivo simultaneamente, e nas ideologias filosóficas do solipsismo/idealismo, que defende (sucintamente explicado) que a existência está dependente da observação – tendo a observação o papel basilar em ambos os casos – a minha reação era solidamente: Não faz sentido algum. É que nem pensar.

 

Não que eu não estivesse recetiva a ponderar sobre visões díspares da minha – estou sempre -, mas porque por mais que eu pensasse, não encontrava modo algum de tal conceito poder funcionar (excetuando situações quânticas). Einstein, quando recebia visitas em casa, perguntava-lhes: Será que a Lua ganha existência quando um rato olha para ela? Pois, não creio que a observação executada pelo ratinho possa conferir existência à Lua realmente. Eu, por outro lado, pensava: a Lua, um lápis, um carro ou uma escova de dentes deixam de existir se não os estivermos a observar? Não me parece. Eu posso jamais observar um determinado objeto (ou seja o que for), e ele não deixa de garantir a sua existência por isso.

Como diriam os partidários do solipsismo, se uma árvore cair na floresta e ninguém estiver lá para ver, então não caiu. Ou, recorrendo ao conceito de dualidade de onda (que abona este ponto de vista), a árvore tanto está de pé, como caiu, podendo estar em ambas as posições. Sim, ao mesmo tempo. E eu volto a objetar na minha mente, não pode ser. Não pode. Não. Essa árvore existe e caiu na floresta, mesmo que eu não veja, que os solipsistas não vejam, mesmo que Einstein não veja, que ninguém veja. Claro que a minha opinião é pequenina, sem relevância científica, e detenho profunda consciência de que está subordinada a uma possível má inteligibilidade intelectual da minha parte. Contudo, não consigo evitar que ela se formule e que eu me digladie com ela ocasionalmente.

 

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Sim, às vezes é mais ou menos assim entre as minhas opiniões e eu…

 

Como vimos no artigo anterior sobre o Princípio da incerteza, nunca sabemos a localização ou velocidade exatas de uma partícula em cada momento, a qual se pode comportar como onda ou partícula, sendo assim possível que se encontre em vários locais e em qualquer estado em simultâneo. Somente num momento pontual de observação é que podemos recolher os dados referidos, todavia num momento seguinte já a informação será diferente, não nos sendo possível saber.  Sim, aqui a observação é realmente determinante para indicar o estado de existência. Mas e para conferir existência integralmente, é possível? Hmm, não sei.

 

Até que.

Pois, vou-vos contar. Num lindo dia chuvoso e nublado, como é típico por aqui em S. Miguel, alguém me perguntou, sob tom de brincadeira metafisica, Se eu pensar, então existo? Ao que eu repliquei naturalmente e sem pensar, Não. Existes se alguém te observar. E bang. Com brusquidão e celeridade fui acometida por uma nova perspetiva, até agora contestada por mim mesma.

 

Observar para existir: sim, não ou assim-assim?

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Sublinho desde já que esta observação pressupõe, a meu ver, uma aliança com a consciência, não se tratando de uma mera contemplação ocular. O que talvez reduza as hipóteses de a Lua existir como consequência da visualização do ratinho. No entanto, quando ao considerar a consciência, não me parece que exista seja o que for sem ela. Sem consciência não há perceção, não há materialização de pensamento, não há modo de comunicar a dedução e nem há tão-pouco a própria comunicação – nem bilateral nem unilateral -, é um vazio cerrado e eternamente cíclico que coíbe a noção de qualquer existência.

Recorramos a um exercício de imaginação. Imaginem um universo paralelo. Sem ser algum, nem material, nem imaterial. Se é que esse último é plausível, mas queremos eliminar qualquer possibilidade consciente. Como é que esse mundo ganha existência? Não ganha. Só se algum ser consciente num outro universo o detetar, mas para tal acontecer, estamos novamente dependentes da observação. Sem isso, não há nada.

E aqui mesmo está a resposta: sem observação, nada.

 

Então… se pensar, logo existo?

rodin

 

Mais ou menos. Se uma pessoa existir sozinha nesse incontactável e inconcebível universo paralelo, será que a sua consciência pensante poderá ser suficiente para confirmar a sua autoexistência e do meio envolvente? A realidade, nesse caso, está confinada à perceção da pessoa; e para estabelecer factos com clareza precisamos de meios objetivos. Basta-lhe andar por lá sentada a pensar como o Pensador de Rodin para que isso lhe assegure existência direta? Talvez não, nem sabemos quão bem pensa esse indivíduo isolado. Quanto ao próprio universo desconhecido, não me é suficiente – enquanto residente neste universo – pensar nele para que exista – temos de o submeter a algum género de observação a fim de confirmar a sua presença. Penso que o mesmo acontece com o seu habitante solitário, a partir do momento que o observemos com consciência, a sua existência ganha vida.

Imaginemos uma pessoa desprovida de qualquer sentido, como poderia diagnosticar qualquer existência exterior a si mesma? Não ia ser possível. Só as restantes pessoas, equipadas de sentidos que permitem observação intelectual ou sensorial, poderiam confirmar a presença dessa pessoa presa dentro de si mesma, bem como do que a rodeia. Mas dado que não nos ouve, nem vê, nem sente, ou cheira, não temos como lhe comunicar nem a sua própria existência.

Em que é que ficamos?

Terá de haver um processo recíproco de consciência-observação-consciência que conduza sequentemente à existência. Este é um ponto de vista, acredito, que confere assaz solidez à doutrina solipsista, o qual seguramente já eles conheciam. Contudo eu confesso que ainda não tinha encontrado o caminho para lá chegar. Tudo o que conhecemos, tudo o que construímos, aprendemos e ensinamos, de que nos apercebemos e observamos, tudo está edificado sobre a consciência. Sem ela: nada.

Sem observação consciente: nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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