Superlua sangrenta. Ok… a sério?

Originalmente publicado no Açoriano Oriental de 28/9/15

Vamos conversar sobre o eclipse lunar dos próximos dias e de como tem sido sensacionalistamente epitetado: Superlua sangrenta.

 

Antes do fenómeno antropológico que pretendo verdadeiramente questionar, vamos considerar com racionalidade as explicações científicas da condição lunar na madrugada de 28/09/2015. Quanto à Superlua, assim é denominada por se encontrar na sua posição orbital de perigeu, ou seja: a órbita da lua desenha uma elipse em torno da Terra, havendo todos os meses um momento em que está mais perto, aparentando estar 14% maior. Em boa verdade científica, não há apenas superluas, mas também super-meias-luas bem como outras superfases. Conquanto é evidente que as restantes podem ser conservadas no fundo gaveta do esquecimento pois falta-lhes o misticismo da lua cheia e dos lobos a uivar.

Vamos tratar da cor agora. Ocasionalmente a lua atravessa a sombra terrestre. Quando o sol se encontra por detrás da Terra, dá-se a dispersão e refração dos raios solares em redor do planeta, os quais são filtrados pela atmosfera, alcançando a lua com menos luz azul e mais vermelha. Esta mesma tonalidade pode ser observada no nosso céu durante o nascer ou pôr do sol, sem representar uma conotação sangrenta e/ou a aproximação de cataclismos terríveis.

Gostaria de recordar que vermelho é também a cor dos morangos, de maçãs, do Santa Clara e de uma música da Fafá de Belém. Se me estão a entender.

Como seria infelizmente de esperar, os vaticínios fraudulentos a prever o fim do mundo orbitam-nos com teimosia. Contudo atualmente são mais comedidos, adicionando astutamente: O fim do mundo como o conhecemos; pois assim é possível relacionar o evento com qualquer coisa que aconteça. Excelente jogada, se eu estivesse a dormir na forma. Um pastor norte-americano, John C. Hagee, relaciona forçadamente a repetição destas luas com passagens bíblicas muito poéticas mas sem suporte científico. O que resulta numa equação brilhante: 4 luas sangrentas consecutivas + livro + centenas de vendas = muito dinheirinho.

Há mais. Ilustres e influentes judeus ortodoxos associam as 4 sequências lunares a – imaginem só – uma sincronização cósmica com dias santos judaicos. No entanto isto não é um caso de debater se foi o ovo ou a galinha a nascer primeiro. A ordem indubitável das coisas é a seguinte: primeiro surge a Lua e depois, muito muito depois, a religião judaica. Portanto, foi a religião que calendarizou as suas datas em função do astro. Não ao contrário. Se há 4 Luas vermelhas em 2014/15, é porque as posições orbitais no Sistema solar assim o permitem, nada mais. Gostaria analogamente de salientar que outrora não havia como explicar cientificamente os acontecimentos do universo, as únicas soluções seriam religiosas/supersticiosas – como revelam claramente os textos bíblicos. Porém agora temos a ciência: por quê então recuar a um tempo intelectualmente retrógrado e ceder à ilógica crendice?

Mas mais importante do que questionar quem cede ao acreditar, é interrogar a motivação de quem sucumbe com facilidade à tentação difundir dementemente estas notícias catastróficas. Creio ter uma resposta, a qual pode ser transcrita por um termo muito em voga: Followers. Tudo vale na corrida da fama, popularidade, dinheiro, seguidores e likes com fartura, seja uma farsa ou não, seja uma falácia de raciocínio ou não, prejudique ou não. Ativa-se a bomba do medo já em contagem final entre os mais vulneráveis, a fim de os brindar com a salvação.

Será como a estória da empresa farmacêutica que dissemina o vírus para futuramente conceder – e mormente enriquecer – com a vacina, cujo preço está sempre bem definido e inflacionado.

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